terça-feira, 14 de outubro de 2008

Destroços


Sei o quanto posso ferí-la
Mas amar não sei se posso
Sei que se amar só vou destruí-la
Depois não amarei destroços

A culpa é vã, o pecado capital, a dor é triste!
O momento profano
O ardor natural
O sofrimento inexiste.

Um simulacro de vida
Um sepulcro vilipendiado
É o coração em carne viva quando é abandonado.

A carne perfeita, cor-de-lua-cheia
Que tange a minha toda
E penetra nas veias.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Planador de Passageiros


É desculpa pra analfabeto...
É desculpa pra analfabeto...
O negócio já começou.
O negócio já começou.

É planador.
É planador.
Incrível queda livre.
É plena dor.
É plena dor.
Indescritível.

Sustentou-se em nuvens voláteis.
Agora aguenta as pontas.
Sabe-se os últimos dias.
O que me contas?

Mais cedo ou mais tarde viria.
Sabe-se-lhes na boca do leão.
Bem que mo diziam.
Se bem que uns diziam que não.

É planador de passageiros.
E ainda falta vento.
Sem motor ou paraquedas.
Mau tempo.

Sem rebocador.
Sem rebocar dor.
É plena dor.
É plana a dor.

Deve-se desculpas pr'os analfabetos.
Por não lhos terem aberto os olhos.
Por eles não serem os prediletos.
Por lhes furarem os olhos pelas costas.

Pelo voto de cabresto.
Por quem não presta.
Pelo julgo do incesto.
Pela catequese.

Planador cabe só um.
Aqui tem gente demais.
Queda livre em comum.
E ainda vem mais.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Poema do Desacordo Ortográfico


Não tenho mais idéia
Nem existe ato heróico
Muito menos assembléias
Eles não vêem mais paranóicos

Feiúra já não existe
É a nova cara do Brasil
Amazônia ainda resiste
Mas a jibóia se aboliu

Eles não crêem mais na gente
Eles não lêem mais artigos
Eles parecem bem contentes
Mas e você aí amigo?

Não sei se vou ou vou na boa
Só sei que não levanto mais meus vôos
E que de barco ou de canoa
Não me acometo mais de enjôos

Estão extinguindo mesmo com tudo
Lingüiças, sagüis e pingüins...
A qualquer hora muda-se o mundo
E ao invés de por tiram os pingos dos is

O que era constante não é mais freqüente
Mesmo assim se acostuma
Ainda mais se inteligente
O brasileiro se apruma

Mas agora é vida nova
É pegar a autoestrada
Ou até mesmo o paraquedas
Mas primeiro a autoescola
Acrescentar algumas letras
O dicionário está na moda
Não está achando uma boa ideia?

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Aquele que seguia sombras


Já não é mais aquele que seguia sombras
Nem companhias boas de beber vinho
Já não é mais desses de residir penumbras
Nem faz mais daquelas de investir sozinho

Não chega mais ao raiar do dia
Não é mais amigo das incertezas
Não chega perto de onde antes ia
Não procura em tudo toda a beleza

Ele é o transgressor das gerações
Todos passam, ele permanece
Ele é o gerador das transgressões
Ele falha, mas não recrudesce

Talvez inove de quando em quando
Mas não mais aquele de iludir o mundo
O tempo passa e ele vai passando
Não se sente mais o que é no fundo

Não mais comícios, beijos e praças
Não faz mais nada que antes fazia
Não vê sorrisos, não vê mais graça
Fugiu a alma que aqui jazia

Age como antes só de quando em vez
Foge quase sempre quando é muito sério
Vive muito tempo quando muito um mês
Se mais que isso já é deletério

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A Raposa Felpuda


Ele é o lobo em pele de cordeiro
A raposa felpuda
Tem pontaria certeira de arqueiro
Ávida e astuta

Sente a ponta da flecha na carne
Remexa na brasa
Sinta a vida escorrer em seu cerne
O fio da navalha

Tem as garras das aves de rapina
Sobrevoa bem alto
Um visão mais nobre do que se imagina
Agarra de assalto

Ele é o lobo vestido em casaca de cordeiro
Que matou para vestir-se
Ela é a flecha morteira e certeira do arqueiro
Que insiste em ferir-me

Tem dom de sobra e só não dobra quem não quer
É força bruta
Tem som de cobra e não se cobra por mulher
Dá o tom da luta

Apesar de lobo sabe o jogo e a presa estuda
Veste-se carneiro prepara as presas bem agudas
Mas o lobo é bobo não sabe o quanto ela o escruta
É fiel do arqueiro e não se brinca com a raposa astuta

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

21:40

Excerto de "Velhos Invernos e Dias de Diamantes"

Pude sentir sua presença no ar,
Pude pagar cada palavra que disse,
Não sabes, nem sei o que é amar,
Mas não pedi que você conseguisse
Ou tentasse só me beijar
Pra não viver essa vida tão triste.

Eu viajo até sua casa,
Posso te ver inquieta infeliz
De madrugada, no sofá de sua sala,
Assistindo para se distrair.
Se tentar ainda ouço sua fala,
Mas não consigo vê-la sorrir.

Se pudesse nunca mais te veria,
Se pudesse eu corria de volta,
Mas não sei se eu te faria compreender essa minha revolta.
E será que você sofreria ao ver o amor sair pela porta?

Você não poderá me esquecer
Com um livro, uma carta, um cd,
Em tudo sempre vais ver
A mim como eu vejo você.

Mas não vai me procurar
Porque não quer dar o braço a torcer,
Mas um dia você vai se cansar
Se cansar de tanto sofrer
De tanto sofrer por amar
Amar como eu amo você.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Volátil (poema feito noise)



Maconha, marijuana, Cannabis, sensimilla
Papoula, cachaça, absinto, losna e artemísia

Cicuta, cigarro, cianoreto...
Éter...
Volátil e perfeito...
Etéreo
Já sob efeito...

Maconha, marijuana, Cannabis, sensimilla
Papoula, cachaça, absinto, losna e artemísia

Sexo, unha, limpeza e prazer
Café, trabalho, comida e morrer

Disputa, troféu, jogo e derrota
Come, dorme, acorda e nem nota

Fumaça de carro, cigarro e batalha
Cigarras no ouvido
Cigarras, cigarras...

Maconha, marijuana, Cannabis, sensimilla
Papoula, cachaça, absinto, losna e artemísia

Dorflex, anador e corda no pescoço
Alivia a dor, ali vem a dor, alicia a dor como reforço

Diazepam, Diazepam
Essa gente tão pagã
Diazepam, Diazepam
Não existe vida sã

Maconha, marijuana, Cannabis, sensimilla
Papoula, cachaça, absinto, losna e artemísia

Esse poema é feito noise...
Esse poema é feito noise...

Vida Sensitiva


Um feixe de luz
Escapa por entre os galhos
Provando que a vida reluz
Faz piscar os olhos

Um átimo
Perplexo
No espelho d'água
Reflexo

Um peixe salta
Rasga o véu d'água
Invade o espaço alheio, peralta
Naufraga

As imagens são nítidas
Entre luz e sombra
Vida sensitiva
Já não mais assombra

Já não mais a sombra...

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Dias Inteiros

Dedicado a José Afonso Alberton

Hoje estou aqui lembrando seus olhos verdadeiros,
Seu jeito de não me incomode,
Seu tempo em tantos cinzeiros.

Seus lábios têm sabor de licor. Campari rubro.
Em seu copo olha um mundo torto,
Se eu olhar eu descubro.

Nosso mundo é profundo de vozes como um rádio noturno,
Sei que há mais que fumaça entre nós.
Nosso mundo é soturno.

Seus pensamentos vão e voltam-se contra seus ideais,
Procurou tanto que achou alegria
Em dias normais.

É hipocrisia dizer que tudo foi contra nós,
Contra você em sua vida,
E comigo logo após.

No entanto nos achamos solitários na metrópole dos sonhos,
Nos perdemos de todos.
E dias estranhos.

Ontem eu estava aqui comigo mesmo, lembrando seus olhos verdes verdadeiros,
Seu jeito de não me incomode,
Nossos dias inteiros.

Os lábios são sábios


Incita-me à contenda
Cicia-me desejos burlescos
Mostre-me a recompensa
Que realizo seus pensamentos

Dê-me o sabor latente
Que sirvo-te da melhor vivenda
Sabes ainda lactente
Sei que não és fazenda

Desvele-me como beata
Revele-se como queira
Mostre-me a maçã intacta
Que sugo-lhe até a seiva

Sinta o amor pulsante
A paranóia, o frenesi
Promovo-lhe uma dor pungente
Que nem mesmo algum dia senti

Descubra a protuberância maior
Cálice dos meus desejos, rotundo
Uma sobremesa após o jantar
Ágape dos deuses do mundo

E agora estamos deitados
Apartados e unidos no mesmo afã
Cada um para o seu lado
Lados contrários, mas causa irmã

O deleite é alvo e pinta os lábios
Os lábios são sábios e o sabem sadios
Os ânimos aquecem, minutos mágicos
O sangue efervesce e recomeça o delírio

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O Aroma


É um aroma de aventura
Olente como certos fluidos
Não como esses que por aí se apura
Mas de uns que vem seguidos de risos

É um torpor de torcer sentidos
É um odor que me agrada infante
Uma alegria que extrai gemidos
Uma sensação de prazer constante

Impulsiona e pula aqui no meu peito
Com seu sorriso pueril me enlaça
Nas adversidades dá-se um jeito
E como ela não há quem faça

Se suamos é de peripécia
Se amamos é da cabeça aos pés
Se jogamos? Sim só jogamos
Mas nosso jogo é bem mais que dez

Tão leve que adorno em uma mão
Capaz de todas as ilicitudes pra sua idade
Tão breve mas não em vão
Capaz de todas as virtudes que aqui se sabe

Não sei se sabe que tem o aroma das aventuras
Só sei que sabe que não apostei quando devia
Não sei se sabe como adorei as nossas loucuras
Só sei que não cabe mais em seus olhos o que antes via.

O ontem, o hoje...



Tão calmo quanto um cemitério
Tão estável quanto posso...
O tempo é deletério
O tempo é amigo nosso

O ontem na tumba
O hoje é a vida
Ainda não assombra
A vinda da ida

Menos fracasso que antes
Instável feito terremoto
Já não é como era antes
Mas não me importo

Não sou inerte ao fator do tempo
Nem tento mais ou menos que antes
Não sei a quanto está o motor do tempo
Nem sei agora o que virá adiante

Às vezes, alheio, de soslaio olho
As águas passadas do meu barco a vela
Digo não posso, mas enfim me molho
Pois as venturas se fizeram belas

O ontem não vive
O retrovisor
O hoje é quem vive
Mas se bem que retrô.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Uma nova gente, um novo dia...


Nada como um dia novo
Nada como uma pá de terra
Nada como um dia o novo
Nada como uma nova era

E um balde de água fria
E um sol bem quente
E um novo dia
E uma nova gente

Quebrar a cara
Murro em ponta de faca
Entortar a vara
Muros com pontas de facas

Ilusões debalde
Um balde de água fria
Uma nova gente
E um novo dia

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

LHC - The End Of Times


A máquina do fim do mundo já está ligada
Pode causar tumulto
Como pode causar nada

Não estou aflito com a novidade
Continuo aqui com meus livros
E ansiedade

Disseram que não é como ligar
A batedeira na tomada
É a maior máquina que existe
A maior máquina pra nada

Como se deu o Big Bang?
É o que queremos saber
Criaremos o nosso também
Estaremos lá para ver?

Agora sim vão dizer que enlouqueci
Que virei um fundamentalista
Ou então que me converti
A algo não provado que exista

Mas tudo bem sou acostumado com isso
Continuo na minha batalha
Julgado, mas não por omisso
Maluco ou coisa que o valha

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Provas de Amor


É fácil exigir provas de amor,
Difícil é se submeter...
É fácil trocar momentos de dor,
Difícil é se comprometer...

É fácil tirar a roupa,
Difícil é tirar a máscara...
É fácil viver uma vida outra,
Difícil é mostrar a cara...

A felicidade não está nos dias atípicos...
Nem na fugacidade da saudade...
A verdade encontra-se nos momentos críticos...
Aí se encontra a verdade.

Se quiser fazer algo de má vontade, não faça.
Se quer viver algo pela metade, não viva.
Se quer algo de qualidade, então faça.
Se quiser me contar a verdade, me liga.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Antecipação


Há que extravasar
Senão estoura
Não é nada demais
Você que exagera

As preocupações
As aflições
As boas lições
As perturbações

Tudo na mesma panela
Entupido até a tampa
Nem vai à fresca janela
Já nem janta

O exemplo
O momento
O tormento
O intento

E virá
Você que nem sabe
Talvez que nem leu
E talvez nunca o saiba

terça-feira, 2 de setembro de 2008

No Meio de Um Coração

(Dedicado a R. S. O. G.)

Escreveu o meu nome no meio de um coração
Irá se apagar, logo vai se apagar...
O vento sopra, o vento é vilão,
Escreveu o meu nome na beira do mar...

Escreveu o meu nome na areia da praia,
Escreveu o meu nome na caneta do dedo,
Escreveu o meu nome porque vai se apagar,
Escreveu o meu nome porque não tinha medo.

Tinha solidão, mas companhia do mar,
Fazia tempo que assim se sentia,
O vento, vilão, a cantar, a cantar,
Por isso escreveu-me na beira mar.

Deixou-se sozinha um minuto a pensar,
Enquanto isso, a maresia;
Escreveu o meu nome, sem ver, nem pensar,
Escreveu o meu nome porque a mim só sentia.

Deixou-me sozinho, quer dizer, o meu nome,
E logo após isso, pôs-se a caminhar,
Na areia da praia tudo se consome,
por isso escreveu-me na areia do mar.

sábado, 30 de agosto de 2008

Essa noite


Essa noite fiquei no meio da rua
Olhando para o céu, pra ver se era abduzido;
Essa noite mergulhei num copo d'água
Porque as outras águas já não tem me seduzido

Essa noite sentei-me na calçada
Como senta um engraxate ou como senta um bom mendigo;
Essa noite senti o vento, o nada
Batendo na minha cara sem violência e sem perigo

Essa noite era eu as folhas secas, rodopiando com o vento
Esse vento de setembro,
Mesmo assim não me contento, muito menos me lamento,
É agosto, sim, me lembro

A dor bate pungente, mesmo assim a festa adentro,
Mesmo assim o peito queima;
O amor bate na gente, uma dor que vai lá dentro,
Um amor que tosco, teima.

Essa noite não quero dormir, mesmo assim há o cansaço,
Mesmo assim existe o sofrer;
Sei que não vão me abduzir, pois não se interessam pelo que faço,
Assim como você

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

A Devassidão

(Letra/ Música: Alessandro Vargas)

Dedicado a Michael Herbert


Se não há remédio pra sua dor
arrume outro amor
Se em sua vida só há problemas,
finja que não há

Se ela ligar no meio da noite
não atenda o telefone;
Se ela falar que lembra de ti,
você diz que nem lembra o seu nome

Para evitar de se lembrar das noites perdidas, da dor de cabeça
que ela um dia tanto lhe causou...

"Diga que vai viajar,
Diga que nunca mais vai voltar,
Diga que arrumou um emprego
E que agora sim, está tudo bem..."

Se ela falar de amizade, você não fale não,
Se ela falar sobre amor de verdade, você fale em traição...

Pois como pode tanta beleza desprezar romance e pureza e só pensar...
... Em devassidão...

"Diga que vai viajar,
Diga que nunca mais vai voltar,
Diga que arrumou um emprego
Que agora sim, está tudo bem...

Diga que vai viajar,
Diga que nunca mais vai voltar,
Diga que arrumou um emprego
E que agora sim, está tudo bem..."

A verdade e o desejo


Há que bebê-la
Mas não só com o intuito de saciar-se
Há que sorvê-la
Sem preocupar de embriagar-se

O desejo não se oculta
A verdade não se omite
A verdade é nua e crua
Senão ela não existe

A satisfação não se disfarça
Ela vem em forma de fluidos
Ela escorre desvairada
Ela vem com seus distúrbios

Repare bem nos traços
Repare o frêmito grave
Segure-a bem nos braços
Apalpe-a bem suave

Libere a válvula de escape
Senão um dia desaba
Agarre-a antes que escape
E agora senão se acaba

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Atravessar o Mar Vermelho


Amo-te mesmo quando não posso
Amo-te mesmo quando não podes
Atravessamos o mar vermelho
Por um contato mais próximo

És a minha presa indefesa
Receba a reprimenda que trago
Fé na minha fortaleza
A fumaça de ti toda trago

Sacrifico-a em prol do desejo
E pode haver de ter sangue
Sou seu mau benfazejo
Sou seu sacrificante
Atravessamos o mar vermelho
Por um desejo maior, esgarçante

Recebe o afeto de que falo
Receba-o com agrado
Escorre pela boca o mel de fato
O leite alvo sagrado

Abro-te mesmo em meio a óbices
Abro-te mesmo com muitos esforços
Amo-te sempre que posso
Ama-me sempre que podes

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

O Preço da Inocência

(Letra/ música: Alessandro Vargas)

Quem diria que seus olhos diziam mais que eu via,
Quem diria que seus lábios desejavam aquilo que eu tanto queria,
Mas há um abismo entre nós dois que se chama amizade
E amizade é o preço da convivência...

Mas o preço da inocência é o silêncio
E o silêncio só aumenta esse desejo,
E com seus beijos eu sonho a cada dia
E quando abro os meus olhos eu não a vejo

Entretanto, há uma ponte depois do abismo,
Mas o tempo é o contratempo do meu cinismo, do meu cinismo...
Esse mesmo que deixa-me insistir em coisas vis,
Mas agora o amor que sinto é verdadeiro...

Mas o preço da inocência é o silêncio
E o silêncio só aumenta esse desejo,
E com seus beijos eu sonho a cada dia
E quando abro os meus olhos eu não a vejo...

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Cansaço


O coração partido
Como se houvesse sentido pra isso
O chão perdido
Como se nada fizesse sentido.

Um choro preso
Um sonho de lágrimas que precisam sair
Um ser indefeso
Um alguém que tem medo de que possa cair.

É tão duro sentir-se assim
Obrigado a ser duro para tentar viver
Uma tristeza sem fim
Obrigado ao menos por tentar compreender.

Um cara dividida
Em uma, duas ou três inconstâncias
Uma vida iludida
Uma preocupação absurda com as circunstâncias.

Ainda nada posso fazer
Embriagado, trôpego de medo
Andando sob meus percalços
Atropelando todos os meus desejos.

Mesmo assim existem caminhos
Qual será o segredo?
Estou só, mesmo não, mas sozinho
Quem me libertará desse medo?

Anseio um calor, um abraço
Anseio uma mão pra me acolher
É muita loucura, cansaço
Às vezes até de viver.

sábado, 16 de agosto de 2008

O Concerto do Mundo


Uma bela ventura
Uma garrafa de cerveja para o sol escaldante
Uma bela aventura
A dignidade é poder comprar uma cerveja contra o sol escaldante.

As pequenas coisas valem muito
Mesmo que pareça que outras coisas valham mais
Na verdade não sinto muito
A verdade não aparece mais...

O que aparece de quando em vez é o desassossego;
O que aparece não é tão visível;
O que aparece é sempre o mesmo;
O que aparece é tão ridículo.

Tudo é tão volúvel...
Ora pútrido, ora inodoro;
Nada que saudável.
Nada que adoro.

Decerto o mundo tem conserto.
Mesmo com tantos defeitos.
Mesmo como um concerto desafinado.
Mesmo com tantos erros.

Uma bela vida.
Uma bela garrafa de cerveja na esquina.
Uma bela vista...
Uma bela vista daqui de cima.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Não há nada na minha mão


Não há nada na minha mão que eu não controle,
Não há nada na minha mão que eu não contorne,
Não há nada na minha mão que eu não sufoque,
Não há nada na minha mão que eu não retoque.

Há bem mais na minha mão do que a sorte,
Há bem mais na minha mão do que a vida,
Há bem mais na minha mão do que a morte,
Há bem mais na minha mão que ferida.

Não há nada na minha mão,
Não há nada na minha cabeça,
Não há nada, não é nada não,
Não é nada que me enlouqueça.

Não há nada na minha mão que não sonhos,
Não há nada além de ilusão aquilo que somos,
Não há nada além da visão que capturemos,
Não há nada na minha mão que antes não vimos.

Antes em minhas mãos havia mãos dadas,
Antes, nas minhas mãos haviam abraços,
Ante à minhas mãos existe trabalho,
Antes houvesse aquilo que já não é nada.

As minhas mãos já sentiram a pele sua,
As minhas mãos já seguraram tantos percalços,
As minhas mãos já aqueceram no inverno as suas,
As minhas mãos já aprenderam o que gosto e faço.

Não há nada na minha mão que outrora houvesse,
Não há nada na minha mão que eu não precisasse,
Não há nada na minha mão que eu não fizesse,
Não há nada na minha mão que eu não amasse.

sábado, 9 de agosto de 2008

Sensinstabilidade


Uma sensibilidade quase que anormal
Uma instabilidade emocional
Os dias andam tão secos...
E coisa e tal

As paredes reverberam ecos
...E nada sabemos
Ou quase sabemos
Mas nada fazemos
Até por que não podemos...

Hoje o dia vai normal
Mas a gente não
Uma instabilidade anormal
Pense bem

Nada reluz
O que reluz não é nada
Nada produz
Nem ouro, nem prata
O dia sem luz
Mas não é nada

Quero encerrar por aqui
Estou sem assunto
Não sei o que senti
Me pergunto

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Velhos invernos e dias de diamantes


Quanta falta faz a conversa vaga, a certeza do nada, a poeira da estrada, a monotonia.
Quero o tempo parado, a volta ao passado, num presente esperado de noite ou de dia.

Nem sonhos, nem nada, só uma tarde azulada, uma noite encantada, minutos eternos,
Deixo a dor abandonada no vento que me leva sozinho, mais nada, para velhos invernos.

Quero ouvir minha alma e violão, com calma, com coração,
Ouvir toda a gente cantando sonhos,
Espero tocar a toada da vida para que esta seja restituída e não haja mais dias estranhos.

Amigos estão distantes, mas ainda é como antes, dias de diamantes e a vida colorida,
Só o tempo é contratempo, arrasta-se lento e lento vai adiando a minha ida.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Um Túnel



Entrar no túnel
É fácil demais
Engendrar loucuras
Jamais, jamais...

Um sonâmbulo perene
E fuga vã
Com torpor que assombra
A loucura irmã...

Um corpo, um túnel
Quero voltar
Não há retorno
Será que há?

Tão fácil quando dormir
E não consigo
Vejo seu corpo o tempo todo
Perigo

Na batida da festa
Muitos rostos
Não o seu
Desgosto

Ritmo
Frenético
Crítico
Sexo

Audaz
Intenso
Voraz
Tão denso

Uma nuvem em minha cabeça
Uma névoa nas ruas
Uma loucura a explodir
Em cada ausência sua

terça-feira, 29 de julho de 2008

Ótimo e próximo


É tão ótimo!
Teve lua linda
Tinha violão
Ainda tinha...

Teve banho de rio
Teve comer bastante
Teve dormir no banco
Por alguns instantes...

Teve amigos ótimos
Sempre tem!
Teve neuroses passageiras
Ainda bem!

E fogueira constante
Sem queimar o pavio
Como tripulantes
De um invisível navio

E tão duradouro
O sol escaldante
Pôr-do-sol de ouro
Delirante!

É tão ótimo!
Teve lua linda...
É tão próximo!
É mais ainda...

terça-feira, 22 de julho de 2008

O Cordeiro



A ovelha fofinha
Desgarrada, berrando
A centelha divina
O pastor vem chegando...

O cordeiro alvo e medroso
O cordeiro amarrado
O lobo quer pêlo todo
O lobo quer almofada...

A ovelha é pega nos braços
O pastor vai levando
Ainda olha pros lados
O temor vai passando...

Tem medo dos lobos...
Mas o arqueiro vem vindo...
O cordeiro medroso...
O cordeiro sozinho...

Não queria sujar o lago
Em que o lobo bebia
Queria só um gole
De água bem fria

Nao tinha irmãos, nem companhia
Nem falaria mal de quem é mais forte
Mas para um lobo não existem desculpas vazias
Ao cordeiro restava esperar sua morte.



[Baseado na Fábula de La Fontaine "O Cordeiro e o Lobo"]

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Missão Demente


Estou pronto.
Finquei pé no chão.
Adliguei-me a mim mesmo.
Sem digressão.

Ganhei os pontos.
Sobrevivi à gestação.
A espera é sempre árdua.
Mas não é em vão.

Dizem-me oportunista.
Mas só estou lá.
Podem imitar-me.
Não é tão bom.

Corri no encalço.
Desatinado.
Ferido e descalço.
Desolado.

Na escuridão.
Não estava em mim mesmo.
Mas em companhia.
A alma sem medo.
Jazia.

Bebida quente.
Pra subir pra cabeça.
Para aliviar.
Pra que não enlouqueça.

Empreendi Fuga.
Não queria outras bocas.
Em meio aos carros.
Sou só um corpo.

Na rodovia.
desnorteado e a pé.
Em busca desatada.
Desatada fé.

Com um corvo negro.
Sobre os fios de cobre.
Com as asas molhadas.
Sob a noite fria.

Sonâmbulo vivo.
Um só segundo.
Mundo soturno.
Um morto vivo.

Hoje sei.
Coração doente.
Psicológico destroçado.
Missão demente.

domingo, 20 de julho de 2008

A Cura


A quero para curar-me... Se ela me amasse
Se de fato houvesse razão para o alarme
Se não fosse tarde

Em meio ao alarde ela me cura
Daquela sensação de que ninguém me procura
À tarde fico em meu quarto
De noite às escuras.

Do outro lado do abismo invisível ela me escuta
Do meu lado não sei que “raios” me perturbam
Do seu lado seria mais árdua a minha luta
Isolado não sei até onde esses sonhos chegam.

Queria-te, dona da cura
Dos problemas cardíacos que você causou
Ser-me-ia dona da lua
Onde homem jamais pisou.

A cura que você me afere
Vem dos seus lábios de beijos desconhecidos
Do seu olhar que ao me olhar me fere
Do seu corpo envolto em tecidos.

A quero para curar-me
Se ela viesse
Se de fato houvesse razão para o amor que por ela só cresce

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Um Desejo de Fé


Te tenho um desejo de fé
Pode crer, creia já
Um desejo que não será
Um desejo que sim já é

Te tenho nas mãos borboleta
De tão frágil e prematura
E tão verde de não madura
Te tenho até obsoleta

Promovo-lhe um olhar pesado
Pra desejares mais que tudo
Pra sentires um amor rotundo
Pra sentires o amor roubado

Assinta com meus planos
Assim desse modo imoral
Assassine toda a moral
Assine por baixo do pano

Te tenho um desejo de fé
Mas não posso consumar
Nem tampouco te contar
E nem sei se você quer

A fuga amiga é
Te deixo de volta prometo
Te trago pra casa não minto
Pois te tenho um desejo de fé

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Sensações


Um copinho de café pra aumentar a dopamina
Um momentinho só de fé pra aumentar minha auto-estima

Um pouquinho só de sexo pra aumentar a endorfina
Um poquinho aqui, sem nexo, só pra dar adrenalina

Entre um meio tempo e outro curta as sensações
Entregue-se de corpo todo a curtas sensações
Entre o tempo todo de corpo às sensações
Entregue seu corpo todo, curta essas sensações

Banhe-se de uma vez nas águas da insensatez
Banhe a sua tez mas faça-o de uma vez

Corra no encalço de aventuras violetas
Corra assim descalço pois venturas são violentas

Violentas e tão belas as venturas audazes
Violetas e bromélias e alegrias lilases

terça-feira, 8 de julho de 2008

Incensos


A noite clara e sopra um vento quente,
Balança as cortinas do quarto no alto,
Tem luz acesa, é sinal de gente,
E sinto sua vida daqui do asfalto.

No corpo um calor louco que desperta tudo,
Paixões, segredos, fantasias...
Um corpo esguio estremece no escuro,
E por baixo das sedas as mãos minhas.

As cortinas parecem querer voar além da janela,
De carona com a brisa no calor tão intenso,
A noite é tão longa, a noite é tão bela,
E as ruas vazias cheirando a incenso.

Se pudesse chamá-la queimaríamos como incensos,
Olentes, na noite quente e corpos esguios,
Suaríamos na cama e lençóis brancos e lenços
Amarrados na cama, nas janelas, ao vento.

Queria um só momento de impulso, de ímpeto, frêmito,
Sequioso dos seus lábios, levá-la para o meu templo,
Na floresta negra da vida levá-la até meu momento,
E chegarmos ao topo do amor, do torpor que é tão denso.

domingo, 6 de julho de 2008

Luxúria


Você é a luxúria que me sufoca
Você é um sufoco no céu da boca
Eu sou o imperador de suas costas
Eu te guio na dança louca

Eu a controlo pelos cabelos
Prefiro que você esteja em minha frente
Adoro a balbúrdia, os desmazelos
Prefiro assim mesmo, insano, demente

A tempestade no furacão
O sexo sem nexo, a paixão
A fúria lasciva, a opressão
Os corpos fazendo pressão

Não sinto nada que não o desatino
Não vejo nada que não o momento
Da sua boca só quero o absinto
Em sua boca só quero estar dentro

De joelhos pra mim, clemente
Descontrolada no afã, infante
Sorve o néctar da fonte à frente
Engole a essência de seu amante

Quero que proves do mel sagrado
Quero o cálice de teu sangue
Quero algo jamais provado
Mesmo que esse algo derrame

Vou desvendar cada curva tua
Destroçar todos os seus sentidos
Na noite turva, na rua, nua
Não conterá mais os seus gritos

Enfim chega o fim
Com torpor que assombra
Esperarei-te bem ali
Na próxima sombra

(***)

sábado, 5 de julho de 2008

Os bóias-frias da modernidade


Entre um expediente e outro
Entre a troca do terceiro trampo
Uma pausa para o almoço
Umas três e tanto

Uma digestão eficaz
Senão já era
Querer um minuto de paz?
Quimera

Um olhar de soslaio pro sol
Da janelinha do banheiro
Uma volta no meu quintal
De uns dois por três metros e meio

Acorda às quatro à força
Mas já não é pau-de-arara
Sobe no "rasga-roupa"
Pra ir pra batalha

Geralmente é rotina
De quando em quando um incidente
Às sete da matina
Só se for acidente

Sacia a sede de sangue
Dos transeuntes passantes
Parecem sanguessugas de mangue
Na lama, mas esgarçantes

Mas a gente merece lazer
A gente se diverte com tudo
A gente sabe que vai morrer
Mesmo assim não razão para o luto

Chega em casa, seu reduto de paz
Onde lá tem alguém que o espera
Se arma, se prepara, e refaz
Porque amanha é dia de guerra

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Sais de Lítio


Fico perdido e confuso
Num sobe e desce difícil
Preciso de um parafuso
Preciso de sais de lítio...

Navego pelo universo
Montado num lindo míssil
Acredito já estar bem perto
Da terra dos sais de lítio...

Caminharei satisfeito
Em meio aos cristais
Lá tudo é perfeito
E os caminhos de sais...

Já não sei escolher
Entre o bem e o mal
Mas só deve ser
A ausência de sal...

Confuso e estranho
Perdido e complexo
Sais de lítio no sangue
Excesso de sexo...

Esquizofrenia, comportamento
Nada está nítido
Meu Medicamento
Meus sais de lítio!

Abro os olhos pro mundo
De um azul bem atípico
Mesmo assim me pergunto:
_ E meus sais de lítio?

terça-feira, 1 de julho de 2008

O Caminheiro


O caminheiro vai contente com o seu cajado na mão;
Não, não é deficiente,
Mas faz parte da missão.

O caminheiro vai alegre e cantando quando pode,
Na estrada de poeira,
Mas poeira se sacode.

Ele leva uma mochila bem pesada nos trieiros,
Ele vai feliz da vida
Sem tristeza e sem dinheiro.

Pára pra comer e conversar com os caminheiros,
A lua é seu teto
E sua casa o mundo inteiro.

Não arruma namorada, até porque não sobra tempo,
É dificil uma amada
Que queira dormir ao relento.

Sabe que seu caminho é ora flores, ora espinhos,
Mesmo assim segue andando
Pois não gosta de desvios.

Gosta mesmo da vida, desatinos, destinos, percalços,
E não reclama das feridas
Que ostenta por pés descalços

O caminheiro vai sozinho, com seu cajado a cantar,
Segue por novos caminhos,
Não sabe onde vai chegar.