quarta-feira, 30 de junho de 2010

Espero

Das bilhões de pessoas na Terra
Podia ter errado com qualquer menos ela;
Já sofrera o quinhão e há sequela.
Podia ter tido compaixão, mas supera.

Sei que hoje seria perfeito
Estou bem mais perto e esmerado
Faríamos quase tudo do mesmo jeito
Aquele presente por nós tanto esperado.

Sonho ouvir sua voz rouca e doce
De madrugada em meu telefone
Mesmo que palavras doces não fossem
Mas suspiraria se ouvisse meu nome.

Lembro que marcamos um reencontro
Num campo verde de sonho e de flores,
Infelizmente houve dano, confronto,
Mas já faz tempo, e calaram-se as dores.

E a distância nunca teve importância,
Mesmo distante mais que antes espero;
Não vejo do esperar decadência,
Não quando é aquilo que quero.

sábado, 26 de junho de 2010

Loucos

E como são meus cabelos revoltos
Onde estão meus parafusos já soltos?
O frenesi achegando-se aos poucos
Porque o mundo é o covil desses loucos.

O paraíso aqui é pra poucos
Tanto gritam aqui e ali que até roucos
Afugentam-se as almas feito cães loucos
Falando-se em loucos sei que estão soltos.

Acordo absorto no chão feito morto
Nem colchão, nem lençol, nem um pouco
O abrigo faz parte do engodo
O inimigo tece as regras do jogo.

Feito Nero por que brinca com fogo
A depressão cai feito um mundo ruidoso
Ninguém escuta ou perscruta, sem rogo
O mundo louco aqui jaz, perigoso.

E pra fugir disso tudo, seu corpo,
Onde mergulho num afago estrondoso,
Não me afogo é um lugar tão gostoso,
É o lagar do vinho mais poderoso.

E recebes em sua boca o mel todo
Faz-me esquecer o mundo dos loucos
Em meu universo só nós em meu jogo
Fora do jugo dos cruéis homens soltos.

(...)

domingo, 20 de junho de 2010

Torto

Não sei que diabos mas o queriam internado
O queriam bem longe, pra lá...
Ele comprou discos do Caetano, usados
E uma tela regionalista em Cuiabá.

Gastava dinheiro, ousava.
Fazia amigos só por afinidade.
Nem drogas mais usava.
Por isso mal visto na cidade.

O diziam torto, se bem que por isso, natimorto.
Não ligava, ao invés disso, cantava João Bosco, absorto!

Remendando sequelas antigas
Já não existem mais aquelas feridas
Pode sentar já no cais sem partidas
E pensar como faz bem a vida...

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Esses e Aqueles


Amo o amigo que faz complô,
Amo o amigo que não é robô.

Amo aquele das controvérsias,
Amo aquele que me prega peças.

Gosto daquele das desavenças,
Melhor é-me ainda o fujão das crenças.

Não aprecio tanto o que me defende,
Mas mais ainda o que, enfim, compreende.

Não sou dado a esses dos elogios,
Mas mais daqueles de olhar sombrio.

Não me agrada aquele que da briga foge,
Me alegro desse que mata ou morre.

Sou mais esses de escudo e espada,
Do que o afago de hostis palavras.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Vidas em Jogo (Quase um soneto)

Quando a conheci já era insana,
Mas muito bem a mim fazia;
Não compreendia toda a trama,
Enquanto eu já enlouquecia.

E entre mimos, risos e choros,
Ao mesmo tempo, embaraçados;
Entre lágrimas, suspiros e gozos
Acordávamos, enfim, abraçados.

Sorriso infante, andar mais ainda,
Não sabia o risco que a mim despertava,
Talvez da minha vida, a moça mais linda,
Melhor se acordasse enquanto ainda sonhava.

Presentes, passados, vidas em jogo,
E vidas duplas de um lado e de outro;
Traição, depressão, mentiras e fogo,
E muita culpa aliada ao pecado.

Um soneto imperfeito de amor e de ódio,
Infelizmente são essas palavras,
Hoje inexiste qualquer dor ou imbróglio,
Mas ainda persiste o som das suas risadas.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O Jugo


O Senhor dos exércitos livrou-me
Do cárcere e das grades aterradoras,
Dos pareceres poupou-me,
E das masmorras perturbadoras.

Quebrou os grilhões invisíveis da alma,
Curou as enfermidades do coração,
Apagou do passado o trauma,
Apacentou o cordeiro fujão (vilão).

Todas as noites fizeram-se dia,
Todas as lendas fizeram-se tolas,
Todas as contendas submergiram
Em águas purificadoras.

Outros provarão os desgostos
Do jugo impreciso, antecipado,
Mostrar-me-á o Senhor os seus rostos,
Como prova e presente ao passado.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Simbiose



E as pessoas dizem por aí:
_ Olha, ele ainda vive!
E botam seu nome no Google...
Um sonho que nunca tive.

E lembra-se de brincadeiras,
Entre praças e bem-me-quer,
Toques em dormideiras,
Esconde-esconde em canto qualquer.

Entre castelos andam ainda,
E dizem meu nome em vitupérios,
Mesmo que tarde da noite se finda,
Meus perjúrios são deletérios.

E há acromanias por toda a parte,
Nas retinas, em nós, simbiose,
Ignora-se a chama que arde,
E na válvula cardíaca, necrose.

Uns dizem dele hipérbole,
Outros o veem cataclisma,
Uns temem dele overdose,
Outros pra isso nem ligam.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Incógnitas


Até quando verei meu rosto no espelho?
Até quando serei pele, ossos, cabelo?
Sou mesmo feliz por tê-la visto em meu mundo
A vida só é bela por saber que vives ainda.

Mesmo sabendo que a senda é curta, imprevisível
Atalha pelos caminhos um perigo invisível
Nada que detenha-me, não enquanto ainda respiro
E paro, e detenho-me, dou uma olhado, prossigo e suspiro.

Todos conhecem-me, aqui e ali, nas adjacências,
Tudo que sobra e falam de mim, nada são que excrescências;
E tudo que sobra, se não incomoda é ardil e profanações,
Mas não vivo de cobras, nem de covis, ou escorpiões.

Até quando verei meu rosto íntegro no espelho?
Mesmo não sendo Dorian Gray possuo segredos,
Mesmo não sendo Narciso, preciso afogar-me em meus medos,
Pra poder descobrir-me e que sou mais que pele e cabelos.

E as incógnitas me boicotam todo o tempo,
Já não quero crer que viver é só uma perda de tempo,
E quando vejo que o tempo perdido é só um contratempo
Tento reviver e pensar que é só uma passagem, ou melhor, passatempo.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Lodo
















Não mais mergulho naquele engodo todo
Enlameado, de medo e lodo
Sinto respirar com esforço improbo
E acordo afoito com desgosto e bobo.

Não mais pertenço a esses ares outros
Já faz-me mal tanto inútil povo
Já não é mal acordar-se morto
Pelo menos isso faço crer que é novo.

Sinto falta do som do seu choro tolo
E sem decoro me preparo todo
E quando lembro desse desaforo
Vejo-me todo enlameado em lodo...

Uma noite afoita como a de um vil cachorro
Faz-me falta tanto aquele som de choro
Que era a trilha de um romance improbo
Que hoje vejo como um tremendo engodo.

Cães violentos ladram o dia todo
E o meu dia mal começa um novo
E se tardia já me sinto bobo
Melhor que antes todo envolto em lodo.


segunda-feira, 19 de abril de 2010

O bobo da corte


E então como vai você?
Batendo sempre na mesma tecla
Andando sempre na mesma vereda
Dá até pena de ver.

E bate na mesma tecla
Parece o bobo da corte
Parece um lobo na flecha
Periga ser o noivo da morte.

Ele corre por aí com alarde
Ela sempre chega mais tarde
O amor já não queima nem arde
Ela é fria, vilã e covarde.

Mergulhou-se na mais fria quimera
E o amor servidor, enfim, já era
Batendo sempre na mesma tecla
valeu a pena o esforço, a espera?

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Um Doce Dia para Ananda - Parte IV - "Ananda, A flor da Vida"

Ela havia desistido da vida. Por quê? Em breve explicarei, mas sem delongas por agora, ou melhor por ora.

Ele consentia do fato de que nada era mais impossível que Dom e Ananda, unidos.

Naquela tarde sombria, mesquinha, para ela vazia, era somente ela, tão-somente-ela, e quatro caixas de comprimidos coloridos na estante. E nada mais seria como antes. A dor pungente, o seio arfante, aquele mesmo que Dom amante, tanto ousara em seus sonhos, na verdade infante.

O brilho do sol se dissipara de tanta mágoa estampada na cara, o rosto sobreposto em lágrimas salínicas, demasiadas salgadas. Ninguém dissera que a fuga nada mais era que o suicídio lento que em breve achegaria.

Mas suicídio não lhe convinha, tinha aquilo como um refúgio daquilo que o mundo todo a expunha sobremaneira e que lhe oferecera com gosto de mel, e na verdade era mistura de fel e sangue coagulado.

Jogou de lado o travesseiro molhado, e o sentimento exposto, lembrou do gosto da noite de ontem, "quem a seguira?" "quem a espreitava?"...


(...)

sexta-feira, 26 de março de 2010

Ritos

Há sentimentos que se nutrem de longe
Senão perde o sentido.
Melhor ser subentendido
Que por vezes incompreendido.

Felicito-me em outros ritos
Mas não mais como era outrora
Não preciso mais sair aos gritos
Pelo menos não agora.

Antes via a vida como se pudesse ser repetida
Hoje sei que a hora é agora
E melhora a cada decaída.

Nada imutável, mas sempre muda, acontece
Parece de novo mas é outro, esquece
Quem pensa assim, não dura, perece
Assim como fiz um dia, tardio, amadurece.

terça-feira, 23 de março de 2010

Bata à minha porta

Sinto falta de ser seu amigo
Faz falta os momentos contigo
O jeito estranho que batia à minha porta
Hoje a noite é mais do que morta.

Persigo visões aturdido se bebo
Alucinações se acordo bem cedo
Perigo encontrar-te por aí, eis o medo
E se divago em ti nem percebo.

E espero mesmo assim ouvir de repente
Aquele bater à porta irreverente
E ao abrir a vir sorridente
E voltar a pensarmos na gente.

E mesmo na noite já morta
Espero que bata à minha porta
Não quero explicar nada, concorda?
Afinal isso já não importa.

E dizer que sem ti não há nada
Nem poesia, alegria ou estrada
Nem um ponto obscuro, nem escada
Nem razão pra sequer uma risada.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Obliterações

Sinto falta dos seus cabelos
Sem sombra de desmazelos
Mesmo que sei não vou tê-los
Mas há saudade de vê-los.

E à noite na cama é o mesmo
Sempre relembro surpreso
Pensamentos vagueiam a esmo
E por isso sei que estou preso.

Sinto a textura da pele
Mesmo que não se revele
Um sentimento que arde, que fere
Mesmo assim quem o repele?

segunda-feira, 15 de março de 2010

Constatações

O fio de barba que rasga o rosto
O sentimento tosco como ferimento exposto
O momento exige um tremendo esforço
O vento lento que me lembra agosto.

Até porque o amor não se exige
Ele acontece ou desvanece
Mas se é amor então que existe
Será que assim desaparece?

quinta-feira, 11 de março de 2010

Não é tão fácil assim

Não é tão fácil assim
A gente carrega a alegria nos ombros
Mesmo com a bateria no fim.

Tenta esquivar-se dos vidros
Que se fizeram cacos no chão
Os dias se fazem compridos
Os dias que ainda nem viram.

E não põe-se um ponto final
Ah, se fosse assim
Mas não é tão fácil pra mim
E não é só um dia ruim.

E desventuras da mente insana
E nostalgias que nascem por si
Nem cabem na mente humana
Nem sabem por que eu nasci.

sábado, 6 de março de 2010

Ainda

Hoje carrego sorriso nos lábios
Mas ainda penso nela
Mesmo nos dias cálidos
Impossível esquecê-la.

Mesmo que nade por outras águas
Mesmo carregando vitórias
Sumiram de todo minhas mágoas
Ficou só o bom da história.

E sou feliz tendo você
Em meu dia a dia em meu mundo
Mesmo sem poder te ver
Te vejo a todo segundo.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Confusões

Era um emaranhado de confusões
E profusões de sensações
Até que tudo inundou-se.
Um mar de paixões.

E nada mais era que mera quimera
E o mundo aturdido na cabeça de um vagabundo
Um segundo já era o que sabia de tudo
E tudo não mais como foi absurdo.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Previsões

Existe amor platônico e correspondido
Se não cruzasse o oceano pra estar contigo
Não seria aquele Alessandro por ti conhecido.

Não conheceria lugares por ter te esquecido
Não mentiria pra ser menos iludido
Não viveria um minuto o perigo
Não seria nem mais seu amigo.

Não posso abdicar se não amei completamente
Nao posso protelar, será que me entende?
Quero seu corpo, passado e presente
Posso prever o futuro recente.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Magias

Tenho engendrado magias e tecendo venturas
A caixa está vazia mas cabe almas ainda
Talvez não seja aquilo que tu procuras
Mas tenho poções e porções de afã e loucura.

Num átimo está ótimo e faço a bel prazer o que sonha no íntimo
É ínfimo mas sinto que contigo posso ir mais além e não minto.

Já sabia da insanidade mas não levarei sorriso no nosso encontro
Posso ser mesmo aquele de sempre que resolve tudo de bate pronto.

Tenho feito planos que me deixam zonzo, me deixam tonto
E pensar em rever parece a meu ver certo contraponto.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Palhaços

Enquanto os espinhos não tocam meus pés
Sigo do jeito que sou, tal como era
Não carrego falsos status,
Não mantenho falsa alegria,
Nada mais seria que pura quimera.

Não precisaria acreditar no que não sou
Não subjulgaria quem certamente é mais que eu
Não comemoraria falsa vitória minha
Não riria de quem já perdeu.

E de que te adiantou esse estardalhaço?
Hoje sei bem que não é esse auge todo
Hoje nada mais vejo que um infeliz palhaço
E ainda quero ver pessoalmente sua cara de bobo.

Não, nenhum espinho chegou a meus pés
E hoje sei realmente o que tu não és
Talvez realmente acreditei na supremacia
Hoje vejo que nada podes, que nada és.

Gostei até das caricaturas, ri-me todo, ri alto
Felicidades não são estampadas daquela maneira
Acordou do pesadelo, de sobressalto
Valeu, palhaço, a brincadeira.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Condicionado

Faça tudo quanto queira fazer
Diga tudo o que queira falar
Faça nada pra se arrepender
Só não tente me obliterar.

É assim mesmo desconexo, errado
É do lado que quero
E mesmo assim, perplexo, isolado
É do jeito que espero.

Sopra um ar condicionado
No escuro da viagem noturna
Tem ninguém do meu lado
Só paisagem soturna.

Enquanto passam as horas
Pensamentos ecoam aturdidos
O mundo voa lá fora
O mundo dos seres perdidos.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Estátuas

Poderia eu acelerar a rotação da Terra?
Poderia eu controlar a fúria das águas?
Como posso sentir desprazer na espera
Se entre as expectativas reside a cura das mágoas.

Tem quem pensa que o aguardo é derrota
Mas quem espera sempre alcança
Um dia o mundo nota
E logo a vida amansa.

Percebo cada qual em suas hostilidades
Mas pra mim são hospitalidades disfarçadas
Enquanto consomem tempo em iniquidades
Pra mim nada mais são que estátuas defasadas.

Borboletas sem casulo
Obsoletas reféns do consumo
No futuro pode que um bom adubo
Por enquanto um razoáel produto.

Nem guardo suas máculas como lembranças
Tampouco vestígios de intemperança
São apenas estátuas, são apenas crianças
Já não fazem mais nada que não irrelevâncias.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Acertos


Não é que tudo mude
Ou acabe...

E nada que acabe que não possa ser restaurado.

O fim é nítido mesmo que um horizonte o esconda
O fim está na curva
E o recomeço bem na próxima...

O mundo com suas voltas
Sempre nos envolvendo
Fazendo-nos enganar
E achar que estamos certos.

Hoje vejo o erro
Mas aprendi como os acertos
Nada muda mesmo
Só muda o jeito de fazermos.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Ainda cruzo o oceano...


Um dia sem arrumar a cama
Mas não desfaço meus planos
Não vivo e revivo esse drama
Ainda cruzo o oceano...

Talvez não veja bem certo
O rumo que estou tomando
Talvez não chegue nem perto
Daquilo que estou pensando.

Não é devaneio, tolo, não
Não é perspicácia descomedida
Não é vida levada em vão
Não é isso que chamo de vida.

Tenho parado o frenesi e sigo pensando
Aproveitando o bom vento soprando
Ainda concluo meu plano
Mesmo que cruze o oceano.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Frívola


Parecia tímida
Ora tépida
Um pouco insípida

Às vezes frígida
Mas de quando rápida
E descomedida

Fingia pouco
pelo menos era o que parecia

Parecia louco
Mas não era isso que se dizia

Veio de encontro
Tipo de bate e pronto

Foi tanto estrondo
Que fiquei tonto.

Hoje vejo bélica
Eu lúcido
Creio frívola
Eu íntegro.

domingo, 3 de janeiro de 2010

O Outro


Ele estava ficando louco
Nesse íntimo de querer ser o outro
Ia aumentando pouco e pouco
E tanto foi que virou muito.

Queria sê-lo e sabia
Tomou namorada experimentou as ex
Como ele vestia
Bronzeou pra igualar a tez.

Já não era pudico era igual
Já era popular nas redondezas
Já falava como tal
Vangloriava espertezas.

O outro dizia-se mito
Ele disfarçava o que podia
Uma cópia de um desconhecido
Mas o desconhecido.

Estudou o elemento a ser copiado
As frases feitas que o outro criou
Estava ficando um sujeito perigoso
Mas no seu íntimo, vitorioso.

E tudo que sabia do outro era fascinante
Mesmo sendo um facínora
Sua vida tosca ficou mais vibrante
Já não é mais o mesmo de antes...

Contemporâneos


Queria escrever algo pra você e pra mim
Mas algo não tão singelo e abstrato
Mas algo tátil e verossímil.

Só queria que você soubesse
De como é feliz sermos contemporâneos
Podia ter nascido no tempo de Dom Pedro
Mas não, dividimos os mesmos tempos
Respiramos os mesmos ventos.

Mesmo errando e sendo humano
Mesmo que faleceremos e seremos esquecidos
Ainda não te esqueci
E somos contemporâneos.

Entra ano e sai ano
As gerações vão mudando
E nós cada vez mais mundanos
Mas não mudam-se os planos
Somos retrógrados
Somos nossos fotógrafos
Pra quem sabe um segundo plano.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Cúmplices

Gosto por não haver vilipêndio
E nada é tão comedido
Em nós dois reside um incêndio
Não existe impulso contido.

Ora, me odeia, destesta
Ora pra esquecer-se de mim
Ora, diz-me não presta!
Ora, que quer então de mim?

E qualquer lugar é um bom lugar
Existe disposição e ânimos comuns
O espião secreto é o luar
A desvendar nossos corpos nus.

Somos cúmplices leais, criminosos
No nosso afã desvairado, secreto
Planos pecaminosos
Executar sempre muito discreto.

Muitos nos julgam, vis
Ela louca, ele insano, ardiloso
Nossos atos sempre muito sutis
Mas o resultado para nós vantajoso.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Imutável


Sem um pesar para trás
A paz transborda de forma suave
A alegria é a gente que faz
E a minha voa como uma ave.

O ano vem com conquistas reais
O dia começa reluzente infinito
Os dias há tempos não são iguais
Os dias há tempos me nascem bonitos.

Sinto a alma inundada por cachoeiras renovadoras
Nada mais muda o imutável de mim
Estou consciente das alegrias vindouras
Feliz do que fiz e sou bem assim.

Não é nem o início do que me propus a ser
Totalmente satisfeito com minha biografia
Feliz por saber o que é vencer
Mais feliz por não viver em apatia.

Mil conquistas, amores, batalhas
As mãos firmes para dardos certeiros
Enquanto venço uns comem migalhas
Tenho a vida dos grandes guerreiros!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Minimalismos

Não precisa gastar vocabulário pra ficar à minha altura,
Não precisa revelar-te, mostrar descompostura,
Sei que sou combativo, entendo suas agruras
Mas saiba que é ilusão, mentira nua e crua.

Olha, intimidei-me tanto que até fui à sua cidade
O boi de segunda importância se incomoda ainda, verdade
Detentor do poder? Não sabia, agora o sei, rei, majestade
Prometo subjulgar-me e submeter-me à sua potestade.

Gastou um texto considerável com um rival já vencido?
Não entendo esse minimalismo, não sei como pode ser isso
Há tempos não ri desse jeito, há tempos, meu inimigo
Gostei, oh, bobo da corte! Adorei, oh ser submisso!

E uma coisa é certa isso ninguém discorda,
Ninguém tem só a cara, o jeito de ser idiota,
Um nerd como você, tapado como uma porta,
Não creio chegar mais longe que a segunda, mas a mim não importa.

Imagino como deve ser triste saber da minha armadura
Quero que use seus artifícios, use sua força, gordura
Já que és acostumado com as estantes mofadas e escuras
Já que no fundo sabes não ser o que ela procura.

Mas subestimei meus próprios talentos e conquistas e vivo
Vivo tanto que às vezes perigo
Espero que dure pra sempre meu "amigo"
Pra que sintas futuramente o inferno contigo.

Acho que tens o dom, tens o poder, é adivinho
Posso chegar a oficial, se esse for o caminho
Não tenho medo de nada, tampouco de ti, nem um pouquinho
Mas quanto a você tenho minhas dúvidas, nobre proletário boizinho.

Sinto alegria ao acordar a cada dia
Pois vejo ataques como razões de só ser mais eu
Sinto alegria ao conquistar o que eu bem queria
E goze o presente usado que o amigo um dia te deu.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Ave da Mente


Quando olhas para mim vê uma figura deprimente?
Solta gritos por aí que sou um fraco, inconsequente?
Mas acredite que sou mais que uma postura surpreendente
Sou aquilo que procuras de uma forma complacente.

Viajo dia e noite nas loucuras mais dementes
As pessoas mais sadias são aquelas tidas doentes
Sigo a trilha da vida e a persigo avidamente
Pra fazer voar de repente e cantar a ave da mente.

Consigo tudo que quero e o faço arduamente
Habito seu pensamento, resido sua alma, sua mente
Revisitei nossos lugares, passado, futuro e presente
Hoje controlo minha calma, pois tenho vitórias à frente.

Assumi meu posto e não vi empecilhos na minha frente
Achei que haveria barreiras que quebraria com minha torrente
Achei que seria mais firme, mais viva, combativa, mais quente
Nem ao menos prendeu em correntes a ave da minha mente.

Você já me sabia astuto e inteligente
Conseguia o que não podia resoluto e intransigente
Fiz por merecer e o fiz avidamente
Mas acho que não conhecia, apresento-te a ave da mente.

Saiba que o ser combativo e bélico é inerente
Perguntei-te mil e cem vezes mesmo assim você não entende
Se achavas que um dia seria só calmaria, condescendente
Perdeu o fio da meada, perdeu-se avidamente.

E jamais quis seu presente, processos, papéis. Deprimente.
Não entendo seu riso forçado, viveria amargamente
Sou mais que um dia trancado, sou o pôr do sol, se me entende
Jamais sentirás o que sinto pois não tens uma ávida mente.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Rotundo...

Tela: O nascimento do mundo - Salvador Dali - 1943

Às vezes sou complacente
Às vezes condescendente
Às vezes um cara decente
Mas só às vezes, entende?

Um dia implico com o mundo
Um dia de ser vagabundo
Um dia de ir lá no fundo
Um dia dou a volta por tudo.

E quase insano e vilão
E quase quebrei o violão
E quase voei de avião
E quase ganhei um coração.

Às vezes ganho a partida
Às vezes choro a partida
Às vezes a vida é partida
Às vezes a vida não é vida.

A vida é uma corrida intransigente
A vida é uma partida indecente
A vida é entupida de gente
A vida é insana e demente.

Lúgubre e lamaçal
Fúnebre e nada mal
Profundo e tudo igual
Rotundo e mal e mal...

domingo, 6 de dezembro de 2009

Constatações

O que houve amigo?
Onde está a soberba em mostrar-me seu retorno triunfante?
Parece que perdeu-se no caminho
Outra vez a mesquinharia, o vínculo, amante?

Parece que temos mais em comum que pensamos
Perdemos o que não tínhamos e erramos
Corremos, esperamos e alcançamos
Mais virá que não sabe sem engano.

É o preço de se tentar tirar da cabeça o que não sai do coração
Os tempos mudam, as venturas são outras
O outrora é por fora, conheça novas garotas!

Mas parece em vão...
Parece em vão.

E tudo vejo que constatações numa tarde fosca
Acha que me entristeço ao ver suas imagens felizes, belas?
Melhor é vê-la mesmo contigo pois felicito-me da sáude dela
Ver sua pele, seu sorriso, sua alegria tosca.

O que houve amigo?
Parou de exibir seu falso status, seu enlace bobo?
Até admiro sua vitória calcada em minha burrice, meu estardalhaço...
Mas parece um jogo, apesar de vitoriosos ficamos aqui com cara de palhaço.

Que pele tem ela né?
Engendrou uma trama ou te jogou da teia por não tratá-la como uma "dama"?
Siga com fé...
Apesar que esperanças nunca são muitas pra quem esperou e viveu tanto drama.

sábado, 28 de novembro de 2009

A Fonte (Metade de Mim)


O amor é clichê
Quem pintou os lábios teus?
Quem desenhou as tuas curvas?
Será obra de algum Deus?

Como são quentes suas coxas
Que me envolvem em noites frias
E são decentes essas moças
Na minha mente fantasias.

Sei do amor suave e intempestivo
Por isso vivo tenro e inflamado
Se penso em ti sinto lascivo
Se vivo em ti sei que amado.

Quero habitar a sua boca
Residir na sua carne
Desvendar a pele louca
Roubar-te até mais tarde.

Alimentar-te, seduzir
Engravidar-te de desejos
Sublimar, abduzir
Suforcar-te nos meus beijos.

Venha à minha fonte e beba
Sacie a vontade enfim
Peça, implore e receba
Quem sabe a metade de mim.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Agruras


O que foi feito das reminiscências?
Agora só restam excrescências
Todos já sabem nas adjacências
De todas as suas incongruências.

Lamentável, ponto final.
Segue-se sem reticências
Mas reticente afinal.

Adiantou toda mácula dirigida?
Que virtude logrou de fato?
Teve êxito no intento fraco?
Agora fica aí corrompida...

Órfã da bondade irmã,
Sem julgo, sem crime, nada.
Desejo de uma dor pagã;
Sem rumo, sem tino, estrada.

Fim das lamúrias de outrora e venturas
Finalizo aqui sem consciência de ti
Sorri ao me aperceber das agruras
E só agora finalmente me vi.

Aos arredores percorre
No meu encalço, desatinada
Por pormenores já morre
Mas não adianta de nada.

Cavou fundo seu poço, imatura,
Talvez a procura de água;
Seu esforço se tornou sepultura
Meu amor por ti virou mágoa.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Carta de Amor (...)



Os olhos distantes e intensos,
O aspecto infante de antes,
Os momentos parecem tão tensos,
O peito em chamas, arfante.

Vejo desejo nos olhos seus,
Um porto seguro na sua inconstância,
Você é perfeita, um presente de Deus,
Um brinde a doçura, ao amor, à infância.

Uma pureza que fiz votos de abolir,
Mesmo assim fico perdido se a encontro,
Um fascínio que me dá ao ver sorrir,
E ao lembrar da sua beleza fico tonto.

Mais feliz é saber do seu amor,
E quando diz que ainda me ama e quer amar,
E sem dormir enche meu peito de um calor,
E fico a noite toda em claro a delirar.

E quem viveu um amor que nos vivemos
Sabe bem o que é viver em sonhos lindos,
E se promessas um ao outro nós fizemos
Agora resta finalmente nos cumprirmos.

Viajo nos seus olhos, seus cabelos
Da sua pele, a maciez, uma delícia,
Seus encantos sei que em breve posso tê-los
Enfim te dar o meu amor, a ti, Patrícia.

Esse poema é dedicado ao seu sorriso,
É uma canção a sua beleza, sua ternura,
Pra que saibas o quanto amo e te preciso,
É uma carta de amor sincera e pura.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Expectativas distantes


Às vezes me detenho
Em expectativas distantes
Num promissor presente
Em algo como antes.

Vivenciar algo novo
Com pessoas do passado
Mas eu vejo é só um jogo
Um mosaico ultrapassado.

Tem rostos que não vejo
Desde quinze ou treze anos
Que sabores tem os beijos?
Quando foi que nos falamos?

E mesmo que já saiba
Que quero alguém pra mim
Talvez já não mais caiba
O amor que sinto enfim.

Sinto tanto amor no peito
São tantas elas e caminhos
Minha vida é desse jeito
Muitas flores muito espinho.

Um dia em minha vida decerto
E entenderia meu desatino
Sentiria no peito um deserto
Sentiria enfim o que sinto.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Vivacidade


Com as energias recarregadas
Não quero nada que venha de graça
Não quero nada que eu não conquistara
Sou o cara mais feliz da praça.

Um sorriso aberto de fotografia
Ela me dizia "dá um sorrisão!"
Havia tempos que eu já não sorria
"Ah, vida boa, mundão!"

E por mais que eu pulasse as etapas
Tem gosto melhor que a vitória tardia?
Dar cara ao embate dar cara aos tapas
Agora a luz em minha face irradia.

Eita amorzão que trago no peito
Uma paixão desenfreada pela vida sem freio
Mesmo mudado mas do mesmo jeito
O coração inundado e de amor todo cheio.

Sente a vivacidade em meu sorriso, meu rosto?
Trago o velho sorrisão armado e real
Acabaram-se as rusgas, o mal e o desgosto
Agora só resta o que vir afinal.

Pronto pra amores, sem dor, nem revolta
Sinto o calor do afeto e desejo
Sinto amores explodindo a minha volta
Antes não via mas agora já vejo.

Estou andando só mas comigo mesmo
Escolhendo como outrora quem segue meus passos
Continuo colhendo flores a esmo
Mas agora não deixo mas saberem o que faço.

Sinto-me vivo e vivo a cantar
Espalhando vivacidade por todo a parte
Prossigo andando e não me fazem parar
Com um sorriso estampado no rosto de tarde.

No auge de mim mesmo e vou mais além
Caminhando sempre com a alegria notória
Essa mesmo eu que não precisa de alguém
Pois sozinho comigo vou de encontro à vitória.

Mil perdões


O tempo vem como bom amigo
Hoje nada posso dizer-lhe que mil perdões
Aprendi sim muito contigo
De nada vale o jogo e vivendo vi mil lições.

Revejo hoje sorrisos sinceros
Estampados em fotografias digitalizadas
Relembro momentos eternos
Em algum lugar da memória datas gravadas.

Não posso reviver e creia fico feliz
Os dias melhores mesmo que antagônimos vieram
Não tem como se viver por um triz
E os sentimentos em suma não morrem
Esperam.

Quero que vivas mil venturas
Com quem quer que seja em qualquer lugar
Mesmo que a minha alma sempre à sua procura
Mesmo que a minha alma viva sempre a rodar.

Perdoe-me os desatinos e a desatenção
Perdoar não enseja um recomeço o amor
Só livre-me da detenção
Que causei a minha alma com tanto desamor.

Desculpe-me a dor e o flagelo tão intenso
Que causei à tua pele que eu tanto amei
Sei que o estrago que fiz foi imenso
Mas um dia ao matar nosso amor me matei.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A rua não é um bom lugar


Preciso um novo porto seguro
Até porque você não é o que procuro
Os momentos com você são doentes, doentios
E os caminhos que fazemos são oblíquos, obscuros.

E definitivamente a rua não é um bom lugar
E o amor que tem na mente logo vai se dissipar
E o ardor que tem na carne é como brasa a se acabar
Mas as cinzas que sobraram ainda queimam sem parar.

Os ventos sopram suaves mas os ares são estranhos
Faz anos que venho tentando mas o outro está ganhando
Um carro desgovernado por pouco não acerta meus planos
E o tempo mal acabado mostrando-se cruel e vilão.

Cansado de palavras nefastas e aturdidas e massantes
Os problemas passageiros as nostalgias são passantes
À mercê de corações alheios à mercê de uns bons calmantes
Essa é a vida de nós humanos transeuntes, incautos, infantes.

Na beira da estrada, uns com namoradas, ficantes
Na margem, na calçada, nós vagabundos e amantes
Uma fuga tresloucada na madrugada e em instantes
Um carro desgovernado amassado pelos corpos de antes.

Tiram cacos de vidro da boca da menina arrumadinha
Respiração boca a boca tirando sangue à reviria
Os cortes à mostra nos rostos da juventude insandecida
Mal sabiam o que viria, quem sabia o que viria?

Nem testemunha, nem nada, nem lua cheia, tumulto
Nem alma viva, fantasma, só correria e insulto
Por uma unha não estava estirado na rua de bruços
Com os cacos de vidro e estilhaços de carro, de gente, de tudo.

sábado, 14 de novembro de 2009

Mais uma noite em que a levo pra casa



Mais uma noite em que a levo pra casa,
No caminho conversas pausadas,
Fico sem graça, faltam palavras,
Sobra silêncio, faltam risadas.

Gosto de rir da sua fala engraçada,
Mas meu desejo era estar bem mais perto,
E bem mais longe desta calçada,
Com você um dia, decerto...

Consiga falar-te, inquietar-te na cama,
Quebrar todos os seus preconceitos,
Acabar de vez com meu drama,
Entender seu modo, seu rosto, trejeitos.

Mais uma noite em que a levo pra casa,
Sem carro, sem muita coisa a dizer,
Apesar de sentir o peito em brasa,
Sinto agonia, paixão e amor por você.

Mas de qualquer forma fi-la parar,
Para não deixar nenhum mal-entendido,
Não quero que saibas assim pelo ar,
De um amor platônico correspondido.

Quero que durmas suavemente
Com minhas palavras invadindo seus sonhos,
Meu rosto completando sua mente,
Mas infelizmente só sonhos.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Imperfeições


Não sou perfeito
Talvez um defeito que muitos queiram ser
Não sou um sujeito
Mas estou sujeito aos seus trejeitos que insiste em ter.

Não fui eleito
Nem homem feito pra ser do jeito que quer que eu seja
Mas tá desfeito todo encanto que um dia atribuí a ti, sua beleza.

Guardei suas afeições em odres de perfume e todas as suas imperfeições
Vibrei de emoções
E restaurei o que havia de podre e negrume nos dois corações.

Ganharia mil almas
Se restaurasse de todo os complexos, a vida, os sonhos e a calma
Uma salva de palmas
Se lavasse seus pés e regasse de flores, refrigerasse sua alma.

Mas já foi superado
O novo é sempre torpe e o que lhe trago é muito vago
Todo o resto é ultrapassado
Sei que tens um novo e meu lugar hoje é a gaveta lá do passado.

Sem conjeturações
Pois minha aparência é a de espectros noturnos e nauseabundos
Cem especulações
Do que é decadência, e aspectos soturnos que assombram seus mundos.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Só por você


Hoje o vento toca cuidadosamente seus cabelos,
Não há mais percepções de antigas maledicências,
Não é preciso ouvir mais as canções de romances perdidos,
Todos já sabem do amor no seu peito nas adjacências.

Uma orquestra reverberando a canção da sua vida,
Nossas vozes tornam uníssonos nossos desejos,
Ah, faz tanto tempo que foi reconstruída
A coisa mais linda que é nossa união consagrada por beijos.

E ouço violinos quando estamos juntos, sozinhos;
Construímos um ninho de confiança plena e perpétua,
Os caminhos que são trilhados já sem espinhos,
E as ruas em que nos amamos estão desertas.

Fizemos promessas de você ser minha por já ser seu,
Eu vi meu Deus ao olhar dentro de ti,
Vi que Deus existia nos olhos seus,
E por crer que era um anjo logo morri.

Guardo acordes de violão melódico em composições suas,
Passei a vida escrevendo um reencontro nosso,
Se lembro de ti vem recordações de duas almas nuas,
Só por você escrevo canções e faço o que posso.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Não é reviver


Os mesmos locais
Outras circunstâncias
Os dias anormais
As mesmas inconstâncias.

Creio que os mesmos lençóis
Outras cores de cabelo
Os dias talvez iguais
Na alma um frio, um gelo.

O mesmo número do quarto antigo
As mãos enlaçadas são outras
Parece um crime, um cinismo, um castigo
Nas calçadas estranhas pessoas.

As mesmas ações desencontradas
Os mesmos locais sem propósito de propósito
Talvez não mesmo as mesmas palavras
Talvez fosse notório demais o óbvio.

E o fogo talvez ameno e normal
Antes queimava o peito e o corpo todo
Mesmo assim há o pecado e capital
E ainda sinto vivo o extinto antigo jogo.

Não é isso que pensas, não é reviver
É reinventar o impossível, o morto
É tentar enxergar o que não soube ver
É tentar ser feliz usando um corpo outro.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Começar de novo


Reinventando o presente
Cultivando alegrias
Semeando as sementes
De bons novos dias.

Afinando a vida
Diapasões de cristal
Reconstruída
De sorrisos e tal.

Planto flores no seu caminho
Pois és vencedora e merece
De cada rosa tirei o espinho
E sei que agora as me oferece.

Já destituída
De ressentimentos remotos
Reconstroi-se a vida
Sem velhos remorsos.

Erforço-me todo
Pra sem turbilhões
Pra sem mais engodo
Que tem aos milhões.

Retumba como águas incontroláveis
De devaneios velhos e quimeras tolas
As emoções se fizeram estáveis
E as perturbações se acabaram todas.

Começar de novo
Porque começar é para os fortes, os bons
Te desejo o dobro
Pois das canções de amor tu me deste os tons.

domingo, 1 de novembro de 2009

Respiração

Conte até dez, respire...
Se soubesse antes
Tudo diferente.

A pressão sanguínea insandecida
Só de saber da sua vida
Tudo fora de medida
Sem saber da sua vinda.

Conto até oito e suspiro...
Falta você e onde procuro
Não acho e me viro
De encontro com o muro.

Conto até cinco e prossigo...
Não consigo parar de sonhar
Sei que contigo é perigo
Mas por que divagar, divagar?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O último ato


Preparado pra batalha
De espada e navalha
Um sorriso na cara
A idéia não falha.

Um escudo içado
O braço maior que o seu
Enfim restaurado
O fim será seu.

Soldado do meu ego
Luto com armas descomunais
Luto com armas de ferro
E com garras de animais.

Fujo tão rapidamente
Que você nem se apercebeu
Que controlo sua mente
E o jogo perdeu.

Ainda vou no seu encalço
Aguarde sem pressa e sem medo
Cuidado o passo em falso
Que sua cena termina mais cedo.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Um doce dia para Ananda - O Dom de Ananda (Parte 3)


Enquanto Dom cada vez mais se enternecia da figura quase angelical de Ananda, e já quase superado o trauma daquele encontro mal sucedido, esta por sua vez lutava para controlar as sensações que seu corpo experimentava, queria compartilhar com ele, ela carrregava o desejo no olhar, como ele não percebia? E não percebia. Dom só vislumbrava aquele estar junto, saborear os beijos de Ananda, passear de mãos dadas, observar o pôr-do-sol irradiar-se sobre os cabelos da bela em um banco de uma praça qualquer. Hoje sabia que a palavra Ananda é um termo sânscrito que significa felicidade suprema, e a Ananda que ele amava, já na época, lhe proporcionava exatamente o que o nome sugeria. O dom de Ananda era dar felicidade suprema ao próprio Dom. Mas para ela esse estado de consciência ainda não era pleno, pois o que seria da felicidade da alma se o corpo estava insatisfeito?
Lembrou-se Dom de que certa noite estivera com Ananda na velha praça da cidade e a beijava carinhosamente em meio aos transeuntes e recostado a um banco, a tenra idade o impedia de lances maiores, mas num instinto que surgiu como um feiche de luz numa floresta fechada, este beijou calorosa e umidamente o pescoço da jovem e ainda mordiscou-lhe o lóbulo da orelha, pôde sentir os arrepios, os pêlos se eriçavam e era possível percebê-los, com os olhos entreabertos pôde ver Ananda de olhos fechados e lábios entreabertos como que sussurrando algo a si mesma, mas de súbito Dom interrompeu aquilo, não sei, sentiu-se incomodado, parecia estar violando um segredo que não podia, ou ao menos não estaria preparado para descobrir. Ela abriu os olhos lentamente como que despertada de um encanto feito fogo que mal começara a queimar-se de todo.

Havia duas coisas em Dom que realmente encantavam Ananda: O sorriso e os beijos. Ah, o sorriso de Dom, para ela era como se o mundo mudasse de todo quando ele abria o sorriso, parecia que todos apreciavam, pois era tão puro, verdadeiro e encantador. Ele poderia armar as maiores travessuras no colégio, mas para Ananda era impossível alguém irritar-se com aquele Dom de sorriso largo, sempre. Quanto aos beijos? As noites eram quentes naquela cidade em que um dia estaria a milhares de quilômetros de distância, aquela pequena cidade; nessas noites ao lembrar dos beijos úmidos, intensos e demorados de Dom, se revirava no lençol da cama, abraçava o travesseiro com força, o colocava entre as pernas, e os beijos de Dom, as mordidinhas nos lábios, suava o seio pequeno e perfeito, mordia os dedos dentro da boca, umedecia-os, ora ousava um toque mais íntimo quando ainda molhados, ora agia com mais vivacidade. O frenesi era intenso.
Não que não houvesse o mesmo desejo no rapaz, de modo algum, ela a tinha como uma peça rara, uma relíquia que conquistara, afinal foi nada fácil convencer as irmãs de Ananda a permitirem aquele romance. Ia arriscar uma ousadia e perder aquilo que lutou por três anos para conseguir? Jamais.

Aquilo da alça fora premeditadamente arquitetado por Ananda, não era possível que não. Tínhamos combinado nos ver segunda, quarta e sexta e nos fins de semana ficava a combinar, e assim ocorreu. Naquela semana, Ananda foi todos os dias da semana na casa de Dom e na sexta ocorreria o fato. Geralmente ela chegava, ouvíamos música, às vezes comíamos alguns petiscos, conversávamos, nos beijávamos e pronto, logo ela ia-se embora e eu ficava a observá-la a caminhar. Os quadris largos, o belo sorriso, e de quando em vez ela se virava apenas para mandar um beijinho. Ele sorria, sorria e retribuía. Felicidade suprema.

Na sexta, por algum motivo, já estava tenso, algo me dizia que o romance caminhava para um ponto crucial, o fogo de Ananda já lançava faíscas sobre o meu rosto; seu corpo era um vulcão prester a explodir, melhor, era uma granada pronta para querer detonar, mas o estopim estava em minhas mãos.
Alguém que estivesse na sala, naquele momento veria, que, quando Dom estava beijando Ananda, de olhos fechados, compenetrado, esta remexeu um dos ombros para frente e para trás com delicadeza, e, sutilmente, a fina alça da blusinha cor-de-rosa sedosa deslizou pelo braço, Dom já estava beijando seu pescoço, e, ao abrir os olhos, pôde ver com perfeição um dos seios de Ananda quase que completamente exposto. O que fazer? O que fazer? Tinha que dar uma resposta, melhor, tinha que agir como resposta àquele fatídico e maravilhoso acontecimento. O tempo urrava exigindo a resposta e, mais inconveniente seria aquela situação perdurar sem qualquer reação de Dom. Mas a resposta não vinha. Creio que mordi os lábios, umedeci-os, a vontade mais lógica e intensa era acolher aquele seio pequeno e perfeitamente rijo nos meus lábios, ia brincar com ele, deslizar a língua por aquele bico róseo e tentador, provavelmente desceria a outra alça teimosa, faria de Ananda o doce mais saboroso da face da terra, e deveria ser provado com suavidade e sem pressa nenhuma. Contudo, a moça parece que percebia essa vontade e, creio hoje, até ansiava por isso. Ela já parecia deitar-se sobre o sofá esperando algo que não fosse o que foi feito, ou seja, nada.
Com a cara mais desapontada e infantil possível, Dom, com muito carinho, fez a alça voltar ao lugar de onde caíra. Sentiu-se tonto, mais tonto ainda, quando da afeição nada satisfeita de Ananda com sua atitude, ou sua falta de atitude. Mas era tarde, o destino, só age uma vez, pelo menos cria ser o destino. Não era.

Não consegui levar Ananda ao seu estado de ananda, e o dom de Ananda era fazer-me sentir cada vez mais apaixonado, e ao mesmo tempo, cada vez mais sem noção do que era realmente o certo a se fazer. Hoje sei que o certo nunca agradou muito a Ananda, nem tampouco a Lascívia, ou a Virgínia ou a quem quer que eu tenha conhecido. Contudo, o que de fato sei é que ainda hoje ela pode se vangloriar em dizer que eu sou o Dom de Ananda. E ela a felicidade, minha e suprema.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Um doce dia para Ananda - Lascívia (Parte 2)


Lascívia era amiga de Ananda, e ela a influenciava de certo modo; e para muitos, Lascívia era algo mais que um encanto de menina. Não que esta fosse desatinada, não, de modo algum, apenas se levava pelos afãs de sua alma. Deixava galopar os cavalos da sua vontade própria sem as interferências do mundão rude lá fora. Ananda sonhava ser aquilo tudo, talvez fosse demais, talvez fosse muito pra sua alma ainda vazia, mal sabia o que se achegaria.

Lascívia enamorava-se de um rapaz, e quando do início do romance de Ananda com, vamos dar um nome ao outro, ou melhor, a mim mesmo... Não sei. Acho que "Dom" é um bom nome e eis que surge o nome, o meu nome. Pois bem, quando Lascívia teve envolvimento com um tal rapaz, e Ananda mal começara seu romance com Dom, a amiga sugeriu que fossem os quatro, a um campo de futebol, jogar bola? Errado. O campo era antigo e, de certo modo, até assustador; haviam eucaliptos que guarneciam a longa entrada que fazia chegar ao reles estádio, sem antes ter que passar por um terreno baldio, coberto de mato, com exceção do estreito trieiro que fazia a conexão ao recinto. A idéia, a princípio, era que nos conhecessemos melhor, até por que, segundo Ananda, Lascívia e o outro eram assíduos frequentadores desse bizarro local, contudo me privaram dos detalhes mais imprescindíveis.

O combinado era que Dom fosse primeiro, às três da tarde, e aguardasse a chegada dos demais, e como este era completamente apaixonado por Ananda, aceitou a proposta. Fez o tortuoso caminho a pé pelo trieiro obscuro, sentiu-se só ao chegar no velho estádio, pensava em Ananda, nos seus olhos, tão verdes; olhou para o lado e vislumbrou um lago de água marrom onde jaziam galhos secos em seu meio. Andou mais um pouco, sentou-se na arquibancada a contemplar o velho campo, agora cheio de ervas daninhas, inclusive algumas bem altas já pela falta de uso. De repente algo avassalador atingiu sua memória; lembrou-se de uma história, e sabia verdadeira, que num passado não muito recente, alguns meninos jogavam futebol naquele campo e que, já no fim do jogo, um dos garotos caíra morto no gramado, fatalmente acometido por um ataque cardíaco fulminante. A cena era triste, de fato. Contudo, neste momento o que mais fazia lembrar na mente de Dom era que os outros garotos diziam que às vezes, no fim da tarde, era possível ouvir um barulho como se alguém estivesse chutando uma bola no tal campo e o barulho da rede ao receber a bola, por sua vez, e pra piorar, quando era possível ouvir esses barulhos não havia uma só pessoa dentro do dito campo; segundo os garotos era típico do jovem finado ficar chutando ao gol, sem goleiro, quando em vida.

A idéia era assustadora, Dom não sabia o que fazer, se remexia no lugar, tapava os ouvidos, olhava para o lago, o que sabia era que não queria ouvir os tais barulhos, e ainda mais que saberia teria que correr por mais da metade do campo até chegar ao velho trieiro que dava acesso à rua. Se não fosse por Lascívia não estaria ali, tinha que culpar alguém, como era burro, pensava, culpava a si mesmo, burro e ainda por cima medroso, terrivelmente medroso. Mas e Ananda? Teria ela um pouco de culpa porque assentiu com a idéia de Lascívia? Jamais, Ananda jamais teria culpa. O pior era que a hora não passava, talvez porque viera sem relógio, mas não passava, e eles não chegavam. Será que me dariam o bolo? Estariam rindo de mim agora? Talvez me vendo de loge... E o fantasma, será que ia bater uma bola logo hoje que estou só aqui? E agora?

Não cairia mais em ciladas de mulher, estratagemas nefastos, aos quatorze anos e já sofrera uma enorme decepção, será que era preciso mais uma? Havia composto canções para Ananda ainda na escola, a vigiava na educação física desde uns três anos atrás, e à primeira vista choquei-me com seu encanto inexprimível. Colocava a mão nos ouvidos, não quero ouvir os sons, mas ainda ouvia os passarinhos e o vento nas folhas das árvores. Onde eles estão? Nas festas da cidade, eu corria atrás das irmãs de Ananda e sempre perguntava por ela, mas sempre diziam "Ananda é nova demais, espere mais um ano." E agora que consigo uma chance estou aqui sozinho, aflito, tenso, com medo... Traído? Num momento dissipou-se de todo o mal estar, ao longe vi três figuras conhecidas seguirem pelo estreito caminho; a silhueta de Ananda era inconfundível, possuía quadris superiores aos das meninas de sua idade e até mais velhas que ela, e cabelos cacheados e pele alva como uma atriz de uma minissérie que estava no ar. Perfeita!
O temor passara de todo, creio que nem lembrava mais da tal história assombrada. Mas mais tarde outro temor se achegaria, e se achegaria outras vezes, e por conseguinte o mataria, não a Dom, mas o romance que mal e mal começara.

Tão logo chegaram os três, após um breve cumprimento Lascívia e seu par saíram rapidamente e de mãos dadas para um canto do estádio, onde em breve, não pude mais vê-los; é, deviam conhecer mesmo o local, e deixaram-me a sós com Ananda. Era nosso primeiro encontro em um local assim. Não sabia como proceder, sentamo-nos na velha arquibancada. Após minutos angustiantes de silêncio começamos a conversar, as conversas eram vagas e desencontradas, às vezes sorríamos. Dom não conhecia o âmago de Ananda, seus interesses ou desejos mais íntimos, nem sabia que os tinha!Por Deus! Se soubesse, quantas e quantas vezes as duas amigas dormiam juntas na casa de Lascívia e passavam a noite a dividir segredos e fantasias a respeito dos homens. Mesmo que virginal, Lascívia nutria uma admiração por Dom, uma vontade de tê-lo em sua cama, aconchegá-lo em suas pernas fartas, experimentar o que até então eram só palavras da experiente Lascívia. E a conversa transcorria monótona quanto o momento, a falta de movimento, as mãos atadas. Dom tinha uns cd's em mãos que pretendia emprestá-los a sua amada e assim o fez. Após algumas horas de inércia quase total, o desfecho. Uns beijos e já era dada a hora de ir-se embora.

Nunca mais vi meus cd's e tampouco Ananda, não nessa mesma ordem, ainda tive um ultimo encontro com ela, não tão menos cretino, aquele da alça traiçoeira. Ainda não acabou. Um dos artistas do cd cantava assim "Remember today, i've no respect for you... and I miss you love...", mas no meu caso foi exatamente o contrário. O respeito acabou comigo. Mas a música era boa, doída, mas boa.
Fico só pensando no desapontamento de Ananda naquela tarde. E o meu comigo mesmo? Esquece.