sábado, 28 de junho de 2008

A Corte


Sou plebeu.
Mas ainda sou eu.
Omito quem de fato sou.
Mas admito que ainda sou.

Vivo na corte.
Mas se se vive na corte podem haver cortes.
Viva a corte!
Se bem que se se vive na corte é questão de sorte.

Mas não sou o bobo.
Sou plebe, mas não acomodada.
Sou até louco.
Mas plebe não deslumbrada.

Essa ascensão não me agrada.
Prefiro meu posto.
Não admito usar essa farda.
Não coloco a tapa meu rosto.

O banquete está servido!
Caem migalhas de migalhas...
Mas me sirvo com os serviçais.
Não me agrado de palhaçadas.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Por que estilistas se vestem tão mal?



Detesto a rotina.
O que faço não muda o mundo.
Modelos, padrões, sabatina.
Sou vagabundo.

Formulários, mandados, intimações.
Todo mundo faz as mesmas coisas.
Até os crimes são iguais.
Por isso há razão de padrões.

E os padrões estão aí.
Hão de ser seguidos.
E os patrões estão aqui.
Periga sermos seguidos.

Manipula-nos tal qual onanistas.
Por hábito, sem ânimo, só gozo.
Por isso onanizo-me aqui.
Pois estou entediado e acho gostoso.

Felizes os perseguidos,
Porque herdarão a terra;
Em que terra seremos acolhidos?
E quem é que nos enterra?

Todos condicionados e mudos
E o ar condicionado
Todos acomodados e surdos
Todos calados

Detesto a monotonia.
O que faço não muda o mundo.
Mas não sei se isso queria.
E não sei se alguém mudaria.

Tem gente que acha que muda.
Mesmo que pela moda.
Tem gente que se acostuma.
Quem se importa?

sábado, 21 de junho de 2008

Avante!


Enfrente.
Em frente!
Enfrente de frente.
Diferente.

Avante!
Avance!
À frente.
Afronte!

De frente.
De fronte.
De costas.
Dê as costas.

Num átimo.
Que ótimo!
Até a proxima!
Até aproxima.

Sinta.
Não pense.
Não minta.
Indecente.

Transe.
Em transe.
No trânsito.
No trance.

Na pista.
Na batida.
Na levada.
Na saída.

No levante.
Se levante.
Não adianta.
Se adiante.

Não esmoreça.
Não amoleça.
Não endureça.
Nunca se esqueça.

Navegue.
Naufrague.
Namore.
No flagra.

Enfrente!
Avante!
Em frente!
Avance!

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Dois mais dois é igual a dois


Dois mais dois é igual a dois
Se for dividido entre nós dois,
Tudo o que é meu é seu,
E tudo o que se faz por nós é dividido.

Um mais um é um,
Porque a tenho, mas nem sequer a vejo,
Um mais um é um,
Pois sem sua boca não há beijo.

Dois mais dois são dois,
Não importa o seu, não importa a minha,
Importa sim o que vem depois,
Se eu ou você não ficar sozinha.

Um mais um agora é um,
Porque você para mim é algo irreal,
Isso tudo é muito comum,
Entretanto para mim não é natural.

Nesse momento restarão só nós dois,
Você, uma de lá e eu aqui, um,
Antes dois e dois eram dois,
Agora um e um só dá um.

domingo, 15 de junho de 2008

O Segredo


Um dia tive o segredo do mundo nas mãos
Mesmo que por poucos segundos
Foi o tempo de querer contar
Que acabou-se o efeito

Tem gente que já o teve também
Mesmo que por um ataque
Mesmo que por uma crise
Mesmo que por um achaque

O cérebro funcionando
Quase que totalmente
O segredo revelado
Esquecido de repente

Queria contar, abri a boca
Queria falar, mas euforia
Depois tristeza
Depois nostalgia

terça-feira, 10 de junho de 2008

Tristeza...



Bate pungente no meio da madrugada...
Corre desvairado em sua cavalgada...
Em seu galope um ronco metálico...
O vento frio golpeia sua cara...

Nem paciência pra um livro, pra nada...
Nem vontade de viajar para longe...
Nem vontade de chorar, não há lágrima...
Nem vontade de voltar para casa...

A tristeza desponta de longe...
A solidão destoa no peito...
A incerteza é meu rumo, é o horizonte...
Que eu uso pra entender o meu jeito

Eu grito por sua alma na noite turva...
Procuro encantos há tanto tempo já esquecidos...
Eu minto pra ter minha calma mesmo na chuva...
Eu fujo dos meus tormentos que cães famintos...

No meu cavalo de metal não sou cavaleiro...
Estou só fugindo e fugindo dos meus algozes...
Sou em quem falo e mal e mal estou me ouvindo...
E em meus ouvidos pareço ouvir um milhão de vozes...

Só vim pra abraçar, beijar, sem mais o que...
Vim sem pensar só vendo as luzes através de meus olhos úmidos...
Sim sem pensar mas com o afã de não mais sofrer...
Sim pra falar que não mais terás dias estúpidos...

Encontrei então o afeto que há tempos procuro em mim mesmo...
Quando saí do meu egoísmo e fui à busca desatinada...
Queria mostrar que não sou por acaso, não sou a esmo...
Queria mostrar que um dia comigo poderás ser amada...

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Uma caneta sempre em mãos...



Uma caneta sempre em mãos
Uma caneta pra escrever um recado
Uma caneta pra dizer uns nãos
Uma caneta pra ganhar um trocado

Uma caneta pra não ficar sem
Uma caneta pra depositar um dinheiro
Uma caneta pra furar alguém
Uma caneta tinteiro

Uma caneta pra prender cabelo
Uma caneta pra aprender letras
Uma caneta pra apreenderem meus bens
Uma caneta pra largar de ser besta

Uma caneta pra estourar no bolso
Uma caneta pra manchar sua camisa
Uma caneta pra durar pouco
Uma caneta pra quem precisa

Uma caneta pra traqueostomia
Uma caneta pra cheirar cocaína
Uma caneta pra ansiedade e agonia
Uma caneta pra salvar uma vida

Uma caneta pra escrever palavrão
No dinheiro ou na parede
Uma caneta "La Modernista Diamonds"
Uma caneta bic verde

Uma caneta pra assinar casamento
Uma caneta pra bancar o otário
Uma caneta pro testamento
Uma caneta pra ficar milionário

Um dia atípico...


Ontem foi um dia atípico. Pra começar comecei normalmente. Acordei (quase) cedo. Fui trabalhar na minha repartição. Cumpri minha meta, como sempre não almoçei (até porque nunca tenho tempo) e me concedem, de quando em vez, de quinze a vinte minutos para o almoço. Comemoro.

Contudo, eu disse atípico, não é mesmo? Ok.
Mudei de setor ao meio-dia e meia. Cumpri outra meta, aliás, meta não, cumpri o que tinha que cumprir e o que sabia, por conseguinte.

Saí às 15:00 horas. Fiquei esperando meu pai vir me buscar. O sol brilhava num azul fosco do céu, quase azul-celeste. Meu pai demorava e muito (pra variar também). Observava as pessoas vulgares em seus comentários cotidianos, e outros atípicos, afinal estávamos, todos, na frente de um fórum, ou seja, entre marginais e endividados para com a justiça. Talvez todos no mesmo charco, inclusive eu. Uns chupando picolés de ambulantes com seus carrinhos de cara dúbia por sua vez (mil perdões!), outros apenas sentados nas soleiras de qualquer canto.

O atípico dessa cena trivial em dia atípico para os triviais, foi que olhava para o céu, sabe lá por que razão, aliás, tenho reparado que tenho olhado muito para o céu ultimamente, seja por um tique nervoso, seja por sabe lá o que... Prosseguindo, eu olhava para o céu através de meus óculos (Oakley, caro que só vendo!rsrsrs), quando senti um reflexo demasiado forte em meus olhos, olhei de relance e vi uma esfera, que parecia metálica, não me atentei muito a este fato, contudo mantí-me mirando fixamente aquele objeto, que seguia em linha reta, ainda, a princípio, pensei ser uma sacola plástica, dessas que voam no vento, ao léu, contudo, de repente o sol deve ter se refletido em alguma parte mais lisa do objeto e aí sim projetou-se grande clarão, devido ao objeto ser realmente metálico. Constatei.

Nesse instante retirei meus óculos e observei a esfera metálica, que agora, se fazia maior, tal qual uma bolinha de gude no céu, não resisti, chamei a atenção de uma pessoa que estava à minha frente e indaguei a ele se estaria vendo aquilo no céu, ocasião em que o mesmo disse: "deve ser um avião", que continuava em linha reta, de fato, podia ser um avião, mas um avião redondo?

Dito isso, o sujeito vulgar que antes estava acompanhado de uma mulher ordinária que havia ido comprar um picolé e demorava, também fixou-se no objeto, nesse instante a esfera parou. Ao parar, foi diminuindo, decrescendo, e até, evaporando-se, pode ser que pelas nunvens tênues e parcas que haviam no céu, até sumir. O sujeito ficou com cara de idiota, talvez que nem a minha estava, não a vi. Que avião é esse redondo que desaparece no meio de seu trajeto às três da tarde e no céu haviam pouquíssimas nuvens como já dito?

De inopino, a mulher ordinária apareceu com os picolés, já escorrendo nogentos, e o sujeito retornou às suas conversas tão ordinárias quanto ambos e talvez até quanto eu, quanto as pessoas apenas sentadas nas soleiras, o céu azul, o dia chato, meu pai atrasado, os endividados judiciais, todo o charco etc. Penso que de atípico e invulgar apenas o objeto metálico, quem o sabe.

Ah, pra finalizar não estava bêbado, nem tampouco sou louco. (talvez louco eu seja...)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Sem Foco


Cansado.
Enfadado de fatos.
Lendo tanto absurdo.
E absurdos em fotos.

Violência em foco.
Mesmo que sem foco a digital.
As digitais na folha branca.
E dias iguais.

Muda de sala, mas não muda o desastre.
A vida humana é algo a pensar-se.
O colapso existe por toda parte.
O ser humano é um disparate.

Cansado até de piscar os olhos.
E nada fere mais que a rotina.
Ainda bem que não me incomodam os sonhos.
Não há mais novidade nas minhas retinas.

sábado, 31 de maio de 2008

Hipocrisia dos Dias


Acordo por acordado. Um dado momento passado. Nem tinha lembrado. O sonho deflagrado. Até por que não costumo sonhar. Melhor nem falar.

O dia frio e irrequieto. Os nervos a flor da pele. Na pele um arrepio manifesto. Falo ereto.

Acontece de acontecer intempéries. Nada sério. Serio que ela me ama? _ Deixa quieto.

Um passo mesmo sem levante. Um levante antes mesmo de poente. O dia frio e inconsistente. Nada além do horizonte.

Alguém me espia de soslaio. Nem levanto, nem saio. Quer me acordar que me acorde.
_ Que raio!

Quer vilipendiar, quer praguejar, comece o dia sem o habitual e hipócrita "Bom dia!", saiba que felicito-me, pois tira-me da rotina.

Na retina nada que o cristal tênue da percepção abrupta. Numa erupção mais tarde e curta, de sensações vulcânicas...

Garanto queimar alguém com afã de impossível. Vem a mim que promovo um suspiro indescritível. A quero na pedra do sacrifício. Pode ser que devore seus ossos. Instinto!

Num movimento mecânico, ora lento, ora ríspido, ora violento, ora químico, ora voraz, ora exaustivo, ora por mim e ora frente a meus joelhos.

Se vir que venha com aromas eróticos, licor nos lábios, fragrância nos seios, força nas pernas, força na vida, força... Força!

Dispa-se do recato vilão, do pudor mesquinho e da hipocrisia dos dias.
Venha sem máscaras, pouco e mais um pouco serás toda minha.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Digressões


Sabe que até ludibriei-me na perspectiva?
Ela avoluma-se no seu tailler de forma peculiar
Como sempre suas formas precisas
Composta no seu lugar

Com um sorriso impreciso que nunca soube decifrar
Como uma cifra intransponível pro meu talento questionável
Com uma alegria razoável que soa-me salutar
Porque não gosto de pessoas de alegrias muito fáceis

Mas eu vejo mesmo em seu semblante um não querer, mas bem que se querer
Eu vejo um horizonte de utopias prováveis
Eu viajo mesmo nesse instante, pois o que há de se fazer?
Eu percebo a existência de possibilidades bem audazes

Eu a levaria para lugares de paz e de sossego
Eu tentaria mesmo sôfrefo aquietar-me em prol do respeito
Você seria bem feliz posso provar-te e aconselho
Mas não tenho a coragem pra consumar o meu intento

Sei bem que tens na pele o aroma de rosas suaves
E delicio-me à distância com meu recato contido e grave
Passo-lhe um óleo na epiderme, em suas costas, o descompasso
Se bem que que quando te olho, a bem da verdade nem sei o que faço

Você seria um desvio de caminho, de rota, de rumo; uma ponte
Um ponto no meu diálogo, longe das reticências;
Um olhar diferente de tudo, uma reta, um viés, um horizonte;
Uma perseguição à felicidade, sem aferição das consequências

terça-feira, 27 de maio de 2008

Usados e Descartáveis


O ser humano é usado.
Não que seja descartável.
Talvez que seja descartável.
Bem provável.

O ser humano, ora abjeto.
O ser mundano, ora objeto.
O ser humano ora em frente ao genuflexório.
O ser humano é obsoleto.

O homem é prolixo.
O homem é pro lixo.
O homem é apolítico.
O homem é apocalíptico.

A gente é sem terra.
A gente se enterra.
Há gente sem terra.
Há gente que se enterra.

Usados e descartáveis.
Tem gente que se usa.
Tem gente que usa gente.
Usa usa a gente.
A gente nem sente.



As pessoas sabem que são usadas.
Às vezes acham que são amadas.
De tanto usadas que são
Acabam parecendo que amadas.

Usados e descartáveis.
Vivendo sem nexo.
Em dia instáveis
Pelo menos o sexo.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

A Caminhada



Vou mudar...
Mas depois não tente encontrar quem eu fui
Vou restaurar,
Mas depois não queira fazer tudo ruir

Vou escapar...
Até por que é o que me sugere
Vou escapar
Mesmo que na esquina me espere

Vou mudar
De casa, telefone, cabelo e endereço
Vou deixar
De me obrigar a fazer coisas que nem a mim mesmo obedeço

Vou me largar
Na tentativa certeira de encontrar novos ares
Vou acertar
Porque tenho mira de arqueiro quando o alvo é novos lugares

Vou andar
Até mesmo por que sempre gostei de uma caminhada
Vou viajar
Sem trajeto, a esmo como caminheiro feliz pela estrada

Vou andar sozinho
Por que até agora foi a melhor companhia que eu encontrei
Vou ficar tranquilo
Por que comigo não sinto perigo e o pior pode crer já passei

Não olharei para trás
Não preciso de sonhos, prefiro a vida que é mais surpreendente
Preciso de paz
De dias risonhos, seguir minha trilha, conhecer nova gente

Enfim sigo só, porque sozinho não preciso explicar
Tente não me entender, pois meus desatinos, planos, instintos são algo que creia não vai captar

quarta-feira, 21 de maio de 2008

O dia de Corpus Christi


O céu é o mesmo
A sombra do pé de manga
A molecada a esmo
Deitada na grama

O dia de Corpus Christi
O dia de fazer nada
Que nada, é dia de pintar as ruas
Com pó de serra e algazarra

Tem professora, tem folia
Mocinha ruiva de papel crepom
Tem alunos na rua, artistas por um dia
Tem beijo na boca na esquina, que bom!

O violão anima essa trama
Faz o tema e a toada do dia azulado
O azul do céu combina com a grama
Os amigos circundam, os amigos do lado

O dia ameno e roda de tereré
O vento sopra suave e preciso
As pessoas caminham a esmo e a pé
Hoje não há pressa nem cobrança ou perigo

Todo mundo feliz que nem gato desperto
Já disse isso em outro poema
Não tem problema pois este é meu tema
Gatos na sombra com amigos por perto

Vou finalizar esse algo que escrevo com algo de treze anos
Romances sem intenções de ser mais do que sensações
De um passado eqüidistante, de um passado que passamos
De dias felizes e calmos, de dias sem preocupações

terça-feira, 20 de maio de 2008

Na verdade sua boca


Você queria se largar
Deixar-se pelo frio da espinha
Amar, amar
Trair
Transar

Não arrefecer na hora H
Se entregar, consumar
Navegar no mar do amor
Cair sem lugar

Naufragar no afã de louca
No mar entregue, aberto
Na verdade sua boca
Água do meu deserto

Você quer possuir o meu corpo
Habitação da sua alma vadia
Angariar o torpor que promovo
Quando proporciono uma experiência sadia



Você quer enlouquecer
Nos meus lábios em seus lábios, sua carne
Seu sangue, meu sangue a beber
Sentir você em seu cerne

Você quer se largar
Se abandonar num minuto comigo
Mas sou eu quem vai te largar
por isso teme o perigo

Quero invadir com ímpeto sua vida
Penetrar-me em seus sonhos com força
Colocar-me na sua ferida
Habitar na verdade sua boca

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Âmago


Sinto sua falta
Mesmo que prejudicial
Sinto sua alma
Mesmo que em formato carnal

Abro-te no meio como tentativa de me por em teu seio
Fugindo das pressões e pressionando-me contra seus seios
Inserindo-me por meio de beijos
No âmago de seus desejos

quinta-feira, 15 de maio de 2008

A Gente é Feito de Carne


A gente é feito de carne
Mas às vezes nem sinto
Amortece-se algumas partes
Como se a parte estivesse dormindo...

Como se parte de algo morresse
E flutuasse e discrepante
E não se intristecesse
Ver-se morrer nesse instante

Como se tudo fosse etéreo
e brumas, enevoado,
Sentir de perto o eterno
Sentir-se do outro lado



Quando se sente a vida escorrendo
Fica-se inerte, indiferente
Tanto faz se parado ou correndo
Sente o sangue vivo e efervescente

Entrega-se pois à fragilidade
Esquece-se da sua coragem
Acaba-se a virilidade
Bem como a desonestidade

Passa a mão sobre a cabeça
Sente o líquido morno
Que desenha em sua face, sua testa
Um rubro escuro contorno

Retoma-se a realidade
Volta-se para os ideais
Esquece a fragilidade
Volta para os seus iguais

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Feito Gato



Acordo, o dia claro.
Céu azul de ficar em casa.
Frescor nítido e abalsamado.
Pés para o alto.

Cansado, mas não de fatos.
Sim de nadas exatos.
Cansado, mas não pra ficar deitado.
Aproveitar para andar feito gato.

Recai sobre o peito o tédio que não se encerra,
Ressai o defeito como um remédio deletério,
Se se acomoda com a moda que transborda e vitupérios
caem sobre as bordas uns arremedos de despautérios.

Avolumam-se as nostalgias contumazes,
Assemelha-se aos transeuntes execráveis,
Comete as hipocrisias mais audazes,
Foge para lugares insalubres.

De tanto cansado, mas não de fato,
Fugiu, se sentiu isolado.
Dor de cabeça, decapitado.
Fugidio, vadio feito gato.

É só um único ápice álacre
Como num gozo fortuito.
Gosto acre quando obtido o vértice.
Mais ainda se fosse gratuito.

Acordo e entro num acordo.
Acomodo a meu modo num cômodo.
Mudo o modo das coisas.
A moda e o mundo anacrônicos.

saio de soslaio da ala.
Corro pela alameda sozinho.
Alardeia-se por toda a sala.
Saio da sala sozinho.

Hoje é querer ficar em casa.
Hoje é matar o dia, a aula, o exato.
Hoje é o ontem que se repete,
Hoje é dia de sair feito gato.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Cada um com sua cruz


Cada um carrega sua cruz
Engendra agonias
Tem Joãos, Josés e Jesus
Inclusive Marias...

Todos envoltos
Em desassossego
Em tempestades
O dia todo.

Como dizem
Só lamentos
Prantos aos cantos
Tremendo
Sobram-se aos cantos remendos.

Ninguém lamenta mais nada
Só cortesias
Ninguém te afaga
Se afaga, mais nada.



Se foi o tempo da preocupação
Agora só auto-ajuda
Com pitada de auto-exílio
Solidão sem cura
Vício.

Como insetos em rumo da luz
Batendo de testa
Seguindo cada um com sua cruz
Numa longa estrada de terra
Como Joãos, Josés e Jesus
Marias, Mateus e Robertas...

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Cotidiano


Trabalho.
Que há que se fazer?
Engraçado.
Acordar cedo. Viver.

Vejo pessoas molhadas, nas ruas e praças
Praças iluminadas
Passos e poças.



Pessoas comuns, e pessoas correndo
reparo alguns.
Estão se molhando.
Nem me atento que também estou me molhando.

O dia molhado.
Mas teve sol.
A noite naufragada.
Gotas de sal.



Quando de carro, vi mundo fosco.
Saí de carro, apesar de desgosto.
Mundo caro.
Vidro tosco.

A vida de rosca.
O sol na gaveta.
O mundo tá russo.
Roleta russa.



Mas se bem que colorido.
Gente sorrindo.
Mesmo na chuva.
Bem sem sentido.

Aliás, caras de nada.
Nem insatisfações, nem sonhos,
Nem dias risonhos,
Nem sonhos de padaria.

domingo, 13 de abril de 2008

O Guardião


Passo o dia inteiro com o escudo içado
O ferrão agudo
O protetorado
Feminino mundo.

Tento protegê-la mas lâminas de aço
Ela é tão meiga
Se simples abraço
Corto suas veias.

Tenho um castelo em que guardo almas
Ela é mais uma
Nenhuma é tão calma
Haverão muitas.

Só dou abrigo, e as almas procuram
Mas depois me abandonam
Quem as entende
Amanhã retornam.

Minha espada é um carinho sutil de afago
Que posto em sua testa
Meu amor feito dor é um estrago
Que Ama e detesta.

Promovo-lhe a guerra e o disparate
Mesmo assim abre fogo em minha cara
Corre pra cima do embate
A guerra não pára.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

No Meio de Um Coração

(Dedicado a Renata Souto de Oliveira Gazeta)

Escreveu o meu nome no meio de um coração
Irá se apagar, logo vai se apagar...
O vento sopra, o vento é vilão,
Escreveu o meu nome na beira do mar...

Escreveu o meu nome na areia da praia,
Escreveu o meu nome na caneta do dedo,
Escreveu o meu nome porque vai se apagar,
Escreveu o meu nome porque não tinha medo.

Tinha solidão, mas companhia do mar,
Fazia tempo que assim se sentia,
O vento, vilão, a cantar, a cantar,
Por isso escreveu-me na beira mar.

Deixou-se sozinha um minuto a pensar,
Enquanto isso, a maresia;
Escreveu o meu nome, sem ver, nem pensar,
Escreveu o meu nome porque a mim só sentia.

Deixou-me sozinho, quer dizer, o meu nome,
E logo após isso, pô-se a caminhar,
Na areia da praia tudo se consome,
por isso escreveu-me na areia do mar.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Ela


Ela é tão imaculada quanto uma meretriz
Ela é tão virginal quanto a boemia
Ela sabe ser feliz
Ela tem alegria!

Ela é mais saudável que um copo de Whisky
Mais feliz que escalar o Everest
Ela disse que há quem se arrisque
E há quem diga que não preste



Ela é virginal e rezo pra ela
E Ajoelho-me frente aos seus
Ela não é nenhuma donzela
Mas eu também não sou nenhum deus

Ela não se irrita, nem se compadece
Sempre é fogo, sempre é carne
Sempre atende a minha prece
Sempre está por toda parte

Ela é inocente e leviana
É bandida e é criança
Ela brinca com seu corpo
Ela ri na sua dança

Sua lágrima é só uma vez
Suas unhas só prazer
Ela é o que ela fez
Ela é o que quiser

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Poema sem nome


Só o saber da possibilidade já é feliz,
Apraz-se de tal modo que se esclarece os vieses. Torna opacos os abraços mais ínfimos.
Desvanece o compadecer de longínquos pesares em singelos pululares de outroras vivazes.

Acredita como nunca creu na idiossincrasia morfética da critica sobressalente. Vive sentidos amorfos.
Sobressai-se da massa existente até por conta da massa encefálica inerente. Segundo encefalograma.

Congelou-se um passado tão quisto até por suas raízes de complexa inclusão no meio humano; sobrevive das reminiscências.
Ludibriou-se dos prazeres, da concupiscência, da volúpia de inúmera tez. Outra vez.

Inebriou-se no agridoce sabor de vinho que a juventude proporciona feito uma festa que o fim é estrada solitária.
Enfim, apesar de que nunca há enfim se o fim é abertura para horizontes mais amplos que os da visão; segue o rito e cumpre a seqüência de séculos, imutável, mutável, curta, porém eterna.

O Ano Inteiro


Dormiria o ano inteiro, se não fosse o dinheiro;
Calaria minha boca pra não entrar mosca;
Abraçaria a almofada e dormiria tranquilo,
Acordaria de madrugada só pra beber água.

Dormiria o mês inteiro, se não fosse o dinheiro;
Roncaria sem medo, até contaria segredos,
Acordaria bem cedo só por um pesadelo,
E não teria mais pressa em arrumar o cabelo.

Domiria o dia inteiro, se não fosse o dinheiro;
Se não fosse o mundo a exigir emprego,
Se não fosse os jornais, o desassossego,
Se não fosse você, eu e o apego.

Dormiria algumas horas, se fosse possível,
O mais incrível é que não tenho vontade,
Dormiria em hotel, motel, qualquer leito,
mas não posso dormir pois não tenho dinheiro.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Corpo e alma


Meu corpo tem sede da sua pele,
Minha alma contenta-se com a sua voz,
Meu corpo exige que se revele
E se entregue ao amor deixado pra trás.

Minha alma se exalta com o seu sorriso,
Mas dele preciso molhado em meus beijos;
Nosso amor se consome sem dor, nem juízo
E à noite sufoco-me em tantos desejos.

Na calmaria do amor te fiz poesias,
No calor da paixão suspiramos gemidos;
Quero teu corpo como nunca queria,
Quero ter esse sonho vivido.

Quero dormir em seu colo de tarde,
À noite possuo seu colo, seus seios;
Nosso amor é chama que arde,
Meus pensamentos são só devaneios.

Posso senti-la cálida, trêmula, envolvendo meu corpo todo,
Umedecendo-me com seus lábios quentes,
Como em uma noite fria de outubro,
Dois corpos amantes, ardentes.

Dormia tranqüilo de tarde,
Sonhava com tudo que me abrasa,
Sentia que alguém me acordava,
Acordei com você em minha casa.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

A penumbra do teu olhar


Era-me salutar contemplar a penumbra do teu olhar,
A meia luz do seu quarto a crepitar, crepitar...
E o encantamento do momento, devagar, devagar, devagar.

Ocorrera-me beijar, abraçar seu corpo na tumba a descansar,
Atendendo a voz do coração que retumba sem cessar,
Aquietar enfim essa alma que não cansa de vagar, de vagar, de vagar...


A luz da sala acesa ilumina o copo de vinho,
Você ébria e acesa, eu, rebelde, sozinho,
Todos muito distantes, mas todos no mesmo caminho.

Fico contente ao ver o amor proliferar,
Sem barreiras, reprimendas para quebrar,
Atingindo e passando como nuvem, devagar, devagar.



Hoje, o seu rosto só vejo em sonho,
O seu sorriso, o sonho não tem cores para exibi-lo,
Meu sonho é um mundo perfeito, um dia tranqüilo,
Que, infelizmente eu consciente não sei transmiti-lo.

Das mil faces que tu mostraste nenhuma eu vi chorar,
Mas era-me salutar o contemplar da penumbra do teu olhar,
Na meia luz do teu quarto a crepitar, crepitar...
... Aquietar enfim essa alma e parar de vagar, devagar, devagar.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Pode ser


Pode ser só perda de tempo o contratempo da dor da ruptura da asa de outrem.
Como digo, o tempo vai lento e adia o momento do amor que sutura a ferida de ontem.

Quero ferí-la pois é assim que posso sentir os seu ossos, sua carne, sua fibra;
Vou desferir golpes em seu rosto pra sentir o seu gosto na noite que vibra.

Pode até ser que eu pudesse e sua alma aquecesse e descesse ao fundo de qualquer vão que fosse.
Não que eu não quisesse que você me aquecesse ou não merecesse um lugar que não esse.

Mas não me prendo a você um só segundo, pois meu mundo é profundo e com o profano não cabe você.
Você me dá sono, prefiro o abandono onde me perco e me encontro e não acho você.

Pode ser só perda de tempo todo o momento da dor da ruptura da asa de alguém.
Como disse, o tempo vai lento e adia o tormento do amor que sutura as feridas de um ontem.