segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Até para se fazer o errado existe uma maneira certa de se fazer


Ela queria a liberdade
Mas não sabia como proceder
Restava a mediocridade
Pena não dizer

A Primavera trouxe a ela
Dias de solidão
Transformou a meiga donzela
Em vítima da situação

Em todo o mal tem-se uma conquista
Um mérito uma lição
Apesar da vida promíscua
Aliviava seu coração

Queria gozar sua nova vida
Que antes talvez não fora quase tanto
Queria recuperar a parte perdida
Que fora deixada num canto

Um deslumbramento que será fugaz
Mas ela precisa dar de cara no muro
Ela acha ter achado a paz
Mas a procura de um modo obscuro

Ela é orfã dos bons amores
Senti tanto dó dela
Imagino que sentiu muitas dores
Quando caiu algo no braço dela

Um sono tão tranquilo
Interrompido por um objeto que cai
Um sentimento desconhecido
Como a esperança que se esvai

Ela só queria liberdade sexual
Ele só queria uma cúmplice
Tudo caminha mal e mal
E o caso ainda está sub judice

Ela não sabe o que é o amor
Pois nunca o teve
Ele não sabe o que é ter dor
Pois ninguém o deteve

Ela alivia suas noites alheia
Ele se esbalda de sexo e fogo
Ela caiu numa teia
Ele coloca outras no jogo

Até para se fazer o errado existe uma maneira certa de se fazer
E se quiser fazer algo de errado me convide
Até para se morrer existe uma maneira nobre de se cometer
E se quiser algo nobre
Incite-me.

4 comentários:

Diego Maria de la Concepcion Juan Nepomuceno Estanislao de la Rivera disse...

INCITAR: (in.ci.tar) (lat incitare) 1 Impelir, mover, instigar; 2 Estimular(-se); vtd 3 Desafiar, provocar; vtd 4 Açular; vpr 5 Irritar-se, enfurecer-se.

“(...)E se quiser algo nobre
Incite-me.”


É, temos mesmo muito em comum, meu caro. Principalmente? A prepotência.
E, confesso, também sou um “Guardião”; e estamos a guardar o mesmo tesouro.
Pena estarmos em trincheiras opostas; ou um prazer: somos dois a apreciar um bom embate, não?


“E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José? (...)”

(C. Drummond de Andrade)


“Sobrevindo, porém, um mais valente do que ele, vence-o, tira-lhe a armadura em que confiava e lhe divide os despojos.” (Lucas 11:22)

Alessandro Vargas disse...

Pode ser que eu seja prepotentes.
De você? Não sei ainda.

Mas não me vejo como no texto do Drumond.

Nunca estou sem mulher,
tampouco sem discurso,
ou carinho,
posso beber,
posso fumar...

Mas é acertado quando tento me espelhar em:

Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta...

Prefiro esse trecho.
Não creio, sobremaneira, estarmos em trincheiras opostas.
Mas podemos dividir os despojos. Se houver.

Obrigado.

Diego Rivera disse...

Sua diplomacia é de fazer inveja até a Trotski; muito bom.

E, concordo: nada de trincheiras.
Acho que ambos preferimos litígios, não?

"A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido, não na vitória propriamente dita." (Mahatma Gandhi)

Alessandro Vargas disse...

Essa frase do Gandhi foi acertada. Explêndido.

Não a conhecia. Ótima mesmo.

Quanto aos litígios, deixa ver...

... Realmente, a vida é uma lide....

"Procure-me em qualquer confusão;
Levanta e te sustenta
E não pensa que eu fui por não te amar... (...)

É bom...
Às vezes se perder
Sem ter porque
Sem ter razão
É um dom...
Saber envaidecer
Por si
Saber mudar de tom..." (diplomacia, rsrsr)... (Marcelo Camelo - Adeus Você)

Adoro dialogar com você amigo.
Mesmo que em meras e insípidas conjecturações minhas.
Obrigado.
Paz e bem!