domingo, 14 de dezembro de 2008

Traços e tormentos


Tem gente que não dá pra olhar muito tempo
Pois se pode incorrer em tormento
Repara-se no alinhamento dos traços
Perde-se em um só momento.

Encare face a face se puder
Eu não pediria tal coisa
Quem perde-se a observar mulher
Pede para perder.

Ganha nos argumentos
Sofre nas teimosias
Mas se se coloca alma em jogo
Derrotado seria.

Lança um olhar de desejo
Avança sobre o objeto, destemida,
Une forças contra o possível beijo
Resta possuí-la.

Anima-se com a utopia
Sofre com novos intentos
Acorda pra ver o dia
Esquece os tormentos.

4 comentários:

Diego Rivera disse...

"Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...

Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força de dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...

Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir, se me retasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo..."

(Guimarães Rosa)

Alessandro Vargas disse...

Que inveja de Guimarães Rosa nessa hora...

Não somente da literatura, mas talvez tão-somente desse sentimento...

Contudo, Diego Rivera, essa leitura trouxe-me uma paz, de alguns segundos, mas que paz...

Diego Rivera disse...

Fico feliz; então somos mais parecidos do que poderia imaginar. Não são só palavras a rimar!

Talvez nossa diferença resida no fato de você criar, enquanto eu vivo para compreender; são fascínios diferentes, mas complementares.

O belo em qualquer texto são seus sentidos não tão óbvios; e mais ainda na poesia, que pede rima, ritmo e desfecho. Enfim, disso tudo, é o sentimento depreendido que merece aplausos; processo, não produto.

Peço vênia pra colacionar um ótimo aqui; perceba como o Millor Fernandes consegue brincar com termos nada convencionais, e ainda sim dar ritmo e um sentido totalmente emocional à palavras tão "exatas", de forma hilária:

"Poesia Matemática"

"Às folhas tantas
Do livro matemático
Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base,
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo otogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela a dela
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?"indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma dos quadrados dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
- O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs -
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas sinoidais.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclideanas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram se casar
Constituir um lar.
Mais que um lar,
Uma perpendicular.

Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
Muito engraçadinhos
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Freqüentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo,
Uma Unidade. Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fração
Mais ordinária.
Mas foi então que o Einstein descobriu a Relatividade
E tudo que era expúrio passou a ser
Moralidade
Como, aliás, em qualquer
Sociedade."

Alessandro Vargas disse...

Olha Diego, desde já agradeço toda a dedicação que confere ao meu blog... E por conseguinte a mim, como lisonja.

Gosto dessa coisa de admiração semi-oculta, uma vez que não te conheço e, provavelmente, não vamos nos conhecer. Que seja.

Gostei que revelou-me o Millôr nesta postagem. Esse é um que me fascina. Ele possui excelência no que faz, desde uma simples crônica ou frase a uma tradução encomendada.

O fascínio está no desprendimento dele em ser excelente, ou seja, a total de despretensão.

Obrigado pela bela leitura.
E pela assiduidade.
Não preciso dizer que percebi a erudição em seus comentários.
Abraços.